“Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a escola pública”. A frase proferida há 90 anos, em 1936, é de Anísio Teixeira, educador por excelência e um dos maiores intelectuais que o Brasil conheceu. O sujeito pensou e tentou fazer funcionar um ensino público gratuito, laico e de qualidade, do básico à pós-graduação. Tarefa muito difícil num país em que o tema educação raramente foi tomado como essencial e prioritário.
Nascido em 1900, em Caetité, no interior da Bahia, filho de família abastada e influente, Anísio destacou-se como aluno disciplinado e brilhante. Formado no cristianismo católico, nunca renegou sua religião – ponto importante como mais adiante destacaremos. Pensou seriamente em ser padre, mas foi demovido da ideia por seu pai, que não queria vê-lo clérigo. O pai despacha-o para o Rio de Janeiro, então capital federal, para que estude Direito. Formado, o jovem de família aristocrática vai ser chamado para integrar o governo da Bahia. O governador queria uma reforma no ensino do estado, e Anísio debruça-se sobre o tema. Visita Espanha, Itália, Inglaterra e Estados Unidos a fim de conhecer experiências educacionais. Dessas visitas nasce a ideia da “Escola Nova”, projeto que concebia uma escola pública gratuita em tempo integral para amplas camadas da população – e não apenas para os que podiam pagar. Outro ponto importante: Teixeira defendia uma escola laica, afastada da influência religiosa. Por esse motivo, o intelectual católico foi achincalhado em artigos de jornal, tachado de “anticristão” e “antifamiliar”. Como se vê, a histeria reacionária não nasceu hoje.
Nos anos de 1930, com os ventos de renovação insinuados pelo governo Vargas, Teixeira estava no Rio de Janeiro como responsável pela educação pública do Distrito Federal. Nesse contexto, brota seu projeto de uma universidade voltada para a formação de professores para todos os níveis de instrução, além de uma atuação que abarcasse pesquisa, produção de conhecimento e de discussão dos problemas do país. Nasce a Universidade do Distrito Federal (UDF). Mas o governo Getúlio logo despiu sua fatiota liberal. Com o Estado Novo ditatorial e sua caça às bruxas, a UDF agonizou até sucumbir de vez em 1939. Teixeira voltou para a Bahia.
Saltando adiante, restaurada a democracia, Teixeira está empenhado na reformulação de um centro de pesquisa federal para a Educação, além de outro para o aperfeiçoamento dos professores universitários. Dessas iniciativas reaparece o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (Inep) e surge a Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (Capes). O Inep nascera no Estado Novo getulista, mas foi com Teixeira, na década de 1950, que passou a ser um centro de pesquisa multidisciplinar. Rebatizado em 2001, ganhou o nome de seu grande mentor: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – a sigla Inep foi mantida. Dentre outras atuações, o órgão hoje é responsável pela elaboração e execução do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
E não poderíamos deixar de lado dois de seus maiores legados: as escolas públicas em tempo integral para o ensino fundamental e médio, criadas na Bahia, na década de 1950, e a Universidade de Brasília – UnB – fundada junto com a nova capital federal em 1961. As assim chamadas escolas-classe e escolas-parque serão o modelo para iniciativas semelhantes no Rio de Janeiro dos anos 1980 (os CIEPs no governo Brizola) e São Paulo nos anos 2000 (os CEUs da gestão Marta). A trajetória desse homem público pode ser vista na “Ocupação Anísio Teixeira”, em São Paulo. A exposição é gratuita e aberta ao público de terça a domingo, no Centro Cultural Itaú, na avenida Paulista.
Fernando Bandini é professor de Literatura