O Brasil atravessa um momento paradoxal em sua economia. Ao mesmo tempo em que buscamos ampliar a produção e retomar o crescimento sustentado, as fábricas e empresas de diversos setores enfrentam um obstáculo severo: a escassez de mão de obra qualificada. Esse gargalo afeta diretamente a competitividade nacional e impõe limites claros ao desenvolvimento de novos projetos em nosso país.
Dados de estudos estratégicos realizados em conjunto pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e pelo Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) apontam que a falta de profissionais preparados atinge uma parcela expressiva das indústrias paulistas, figurando de maneira recorrente entre os principais entraves para a atividade produtiva cotidiana. Não é raro ouvir empresários relatarem, nas reuniões do Ciesp, as profundas dificuldades que têm enfrentado para conseguir efetuar contratações e preencher vagas operacionais e técnicas essenciais.
Esse cenário desafiador está longe de ser um problema exclusivo do setor produtivo ou do empresariado, pois afeta toda a sociedade. Quando as empresas não encontram trabalhadores capacitados, a produção desacelera, os investimentos diminuem e os custos dos serviços e produtos sobem, prejudicando o orçamento de todas as famílias. O fato de o mercado de trabalho estar aquecido também não justifica a falta de mão de obra. Afinal, segundo dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgados no segundo semestre de 2026, ainda existem cerca de 5,8 milhões de pessoas desocupadas no Brasil. O que temos é um descompasso evidente entre a qualificação dos profissionais disponíveis e as exigências do mercado moderno.
Além disso, levantamentos importantes como a pesquisa de escassez de talentos do ManpowerGroup, divulgados em 2026, mostram que 80% das empresas brasileiras encontram dificuldades para preencher suas vagas abertas, um índice superior à média mundial de 72%.
Para superar esse desafio urgente, a chave principal está na educação profissional e na valorização da formação continuada ao longo de toda a vida produtiva. Instituições de excelência como o Sesi (Serviço Social da Indústria) e o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) cumprem um papel fundamental e histórico ao antecipar as demandas do mercado de trabalho e preparar os cidadãos para a chamada indústria do futuro. Precisamos aproximar cada vez mais a sala de aula da realidade das fábricas. Tudo isso exige um olhar sensível da sociedade para a educação, a formação e a capacitação. Diante das mudanças tecnológicas intensas e contínuas que vivenciamos, hoje todos nós precisamos nos atualizar continuamente e adotar o aprendizado constante para construir um futuro com mais emprego, renda e desenvolvimento.
Enquanto o Brasil busca acelerar o passo, nações desenvolvidas e economias emergentes de destaque já transformaram o investimento em educação tecnológica e capacitação contínua em uma verdadeira política de Estado. Países líderes em inovação vêm destinando recursos massivos para requalificar suas forças de trabalho, antecipando o impacto da automação e da inteligência artificial no mercado laboral. Nações europeias e asiáticas, por exemplo, implementam programas públicos e privados integrados que estimulam o aprendizado ao longo de toda a vida, garantindo que o trabalhador domine novas ferramentas digitais desde a educação básica até o chão de fábrica. Esse movimento internacional demonstra que o desenvolvimento econômico sustentável no século XXI depende diretamente de uma base educacional ágil e conectada com a vanguarda tecnológica global.
FRANCESCONI JÚNIOR é primeiro-vice presidente do Ciesp e diretor da Fiesp