26 de outubro de 2026
OPINIÃO

Quem vê na (sua) dor uma oportunidade


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Existem várias causas pelos quais podemos entrar em uma repetição de comportamento e querer “cravar” um único motivo que sirva em todos os (muitos) casos é investir na certeza de que se vai errar a maioria. No entanto, quando a repetição envolve um comportamento que é deletério para a própria integridade do indivíduo, seja física ou mental, tem boas chances de envolver algum mecanismo biológico que primariamente é orientado para a sobrevivência, mas que no contexto da atualidade encontra-se “mal calibrado” para tal propósito.

A ferida da rejeição é bem problemática por conta disto. Somos animais “de grupo” e nossa força se encontra na ordenação e no pertencimento aos vários grupos que formamos naturalmente e, do ponto de vista do sobrevivencialismo, uma posição ruim dentro do grupo é melhor do que qualquer posição fora dele.

Nosso cérebro é estruturado para atender a isto, manejando os neurônios e sua química para se sentir seguro quando aceito e se sentir mal, muito mal, quando nosso comportamento nos leva a uma rejeição.

De fato, os circuitos cerebrais ativados quando nos sentimos rejeitados são os mesmos usados em dores físicas, como queimaduras, por exemplo. Para partes do nosso cérebro (e da nossa percepção), ser rejeitado em um grupo é tão ruim e doloroso quanto queimar a mão tentando tirar uma assadeira quente do forno aceso.

Caso o leitor(a) tenha se sentido arrepiado só de pensar na situação, saiba que é assim mesmo que o seu cérebro percebe a possibilidade de ser rejeitado, seja em um grupo ou em um relacionamento

Falando em relacionamento, parte da dificuldade de sair de um com características abusivas está em suportar a sensação, tão desagradável quanto um ferimento, de ser rejeitado pelo “lugar” em que se trabalhou muito para ficar.

Pela sua programação “básica” o cérebro vai sempre entender isso como um comportamento de risco, sem levar em consideração que se manter sob “assédio” também é arriscado, ainda que familiar.

O sistema nervoso é eficiente e deseja gastar a menor quantidade de energia possível para auxiliar na sobrevivência. Pensar de uma maneira polarizada, simplista e preferir insistir em pessoas que não nos produzem conexão, mas que são convenientes, é uma forma econômica em termos de energia de resolver a questão de pertencimento.

Alguns abusadores, inclusive, se aproveitam deste conhecimento caso seus alvos desejem se libertar dos “laços” do relacionamento, fazendo com que se sintam culpados e totalmente responsáveis por “não ter dado certo”. Desta forma o preço de sair de onde se é abusado passa por ter que suportar por um bom tempo o incômodo de “arrancar um pedaço de si mesmo” ... literalmente.

O cérebro ainda, diante da dor, tende a se lembrar com mais facilidade dos ganhos e vantagens que o relacionamento trazia (falsa sensação de segurança ou posse disfarçada de afeto) do que os prejuízos que também decorreriam de permanecer com a atenção e as esperanças projetadas em pessoas sem empatia verdadeira.

Tecnicamente chamamos isso de “viés de confirmação”, ou seja, valorizar informações alinhadas com suas escolhas em detrimento daquelas que mostram que estamos errados, nos conduzindo sempre para uma escolha “velha conhecida”, mas que não nos afasta do perigo.

 

Dr. Alexandre Martin é médico especialista em acupuntura e com formação em medicina tradicional chinesa, osteopatia e inteligência sistêmica.