31 de outubro de 2026
OPINIÃO

Pervertemos a Polis


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Todos os que estudamos humanidades, principalmente as ciências jurídicas, aprendemos que o único exemplo concreto de democracia direta aconteceu em Atenas, no século de Péricles. Mas costumamos traduzir a “Polis” ateniense por “Cidade Estado”, o que é algo equivocado.

A “polis” era uma comunidade que prescindia de um governante, pois a imposição de força de cima para baixo era uma heresia para os gregos. Bem analisada a obra aristotélica e platônica, verifica-se que a “polis” ideal não deveria possuir mais do que cinco mil cidadãos. O que se pretendia é que cada um pudesse identificar, fisionomicamente, os demais. Aglomerações superiores a cinco mil tornariam impossível a participação de cada qual na gestão da coisa pública.

Isso foi assimilado pelos atenienses que até hoje são gregários, agem socialmente, reúnem-se e frequentam, diuturnamente, seus espaços públicos, onde podem dialogar sobre os problemas que os afligem.

Quando Aristóteles falou que o homem é um animal social, quis dizer que o ser humano é, naturalmente, uma criatura política. Mas “política”, da “polis”, não no sentido pejorativo que a atividade político partidária adquiriu em nossos tenebrosos tempos.

O cidadão da “polis” era aquele que vibrava com as vitórias de sua cidade, que oferecia a própria vida para obter ganhos coletivos, que se sacrificava pela causa comum.

O político de hoje, ressalvadas as raríssimas e honrosíssimas exceções, é um ser que faz da atuação verdadeira profissão e que nem sempre está afinado com as reais necessidades do seu povo.

Por isso é que, nas emblemáticas eleições deste 2026, as pessoas devem pensar bem em quem votar. Principalmente em relação ao Parlamento, que na visão tradicional de Montesquieu, é o poder mais importante. É aquele que estabelece as regras do jogo. No Estado de Direito de índole democrática, administrar – tarefa do Executivo – é cumprir a lei. Já o Judiciário existe para fazer incidir a vontade concreta da lei sobre as controvérsias, os conflitos, as contendas.

O verdadeiro “senhor” da gestão pública é o Legislativo. Por isso, escolher pessoas confiáveis. Aquelas com as quais você pode falar diretamente. Poucas pessoas têm acesso ao Presidente da República ou ao Governador. Mas precisam ter chance de falar com o Vereador, com o Deputado Estadual, com o Deputado Federal e com o Senador da República.

Estes seres – mulheres e homens vocacionados – devem ser aqueles que o eleitor receberia em sua casa, honraria com sua afeição e com a sua amizade. Hoje, o Brasil vive uma espécie de perversão da “polis”. A política assusta grande parte da população, diante de malfeitos, escândalos, conchavos e corrupção desbragada.

Não nos esqueçamos de que o governo é eleito por nós. O agente de autoridade, seja ele governante do Executivo ou integrante de qualquer esfera do Parlamento, é um mandatário do mandato que nós – eleitores – a ele outorgamos. Ele deve prestar contas. E nós, exigir essa prestação de contas.

Enquanto não restabelecermos a crença na Democracia que temos, nada irá melhor nesta nação que tem tantas potencialidades, mas que não tem passado da condição de “país do futuro”, cada vez mais incerto, cada vez mais distante.

Sejamos responsáveis na escolha. Quanto mais próximo de nós o merecedor de nosso voto, melhor. Pois assim poderemos acompanhar sua conduta e seu trabalho, em vez de esperar por novas eleições, quando aparecem os vendedores de ilusão, que desaparecem assim que eleitos.

Valorizemos nossa “polis” e resgatemos o valor inestimável da democracia historicamente vivenciada por nossos mentores, os gregos da era clássica.

 

 

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo