Cada um é responsável por si. Será? Esta semana presenciei três episódios bizarros.
Estava eu num pequeno restaurante de comida por quilo. Daqueles onde o arroz com feijão é delicioso e o preço honesto. Entraram quatro trabalhadores. Um deles, que pareceu ser o chefe, perguntou para os seus liderados o que iam querer. A empresa havia disponibilizado verba para marmitas de tamanho médio. Assim, dois deles escolheram dobradinha com batata frita e salada.
Mas o que me chamou a atenção foi aquele que olhava para o bufê de comida variada, até com certo espanto, sem saber o que escolher além do arroz com feijão. Talvez, o peixe frito que estava com uma aparência muito boa, ou o frango assado? Quem sabe a dobradinha? Seus olhos brilhavam...
Diante da indecisão o chefe perguntou: O que vai ser?
O rapaz, após hesitar alguns instantes, timidamente respondeu: Dobradinha.
O chefe uma vez mais questionou. Só? Pega pelos menos a batatinha. O rapaz prontamente concordou.
Às vezes, ficamos tanto tempo sem opções que, quando surge a oportunidade, paramos imobilizados com dificuldade de saber o que realmente queremos.
Episódio 2
Uma moça, talvez quase senhora parou diante do meu prédio com um maço de panfletos políticos nos braços.
Eu acabava de estacionar o carro e, educadamente, pedi um folheto.
Inesperadamente a estranha veio em minha direção, me abraçou calorosamente, com um folheto na mão e disse:
Ele é maravilhoso (apontando a foto estampada no pedaço de papel).
Fiquei perplexa. Será que aquele candidato era bom mesmo? No sentido de ter propostas que seriam interessantes para a sociedade ou, naquele momento, ele foi uma tábua de salvação para ela, com ganhos diários, um lanche e um refri. Ou será que esse trabalho foi uma opção para a saída da miséria temporária.
Episódio 3
Eu, saindo de um supermercado de rua, num dos bairros da periferia de Jundiaí, fui abordada por uma mãe pedindo pão para seu filho. Imediatamente voltei para o interior do mercado e peguei um pacote de pão bisnaguinha, o mesmo que meus filhos adoravam quando criança. Entreguei o pacote para mãe e o menino pediu um doce.
Expliquei: acabei de comprar pãozinho para você. Quando você doa, quem recebe acha que você pode dar mais.
O que há em comum entre os três episódios? A pobreza.
A pobreza de não ter o que comer, um lugar seguro para morar, trabalho estável, saúde. A dificuldade para manter a dignidade diante da fome. E a indecisão da escolha após muito tempo sem opção.
Como poder escolher, quando se está diante do estado de sobrevivência?
É possível pensar, analisar, avaliar quando se está com fome?
Cada um dos episódios me trouxe diferentes reflexões baseadas em fases da minha própria vida e um questionamento primordial:
Será que o Brasil, diante do espetáculo escandaloso das instituições, tem salvação? O que será de seu povo anestesiado pela fome e ignorância caminhando feito autômato, sem condição física ou psicológica de escolher?
Rosângela Portela é jornalista, consultora e mentora em comunicação