Todas as vezes no anúncio da Igreja que é preciso perdoar não sete, mas setenta vezes sete (Mateus 18, 22), recordo-me dela. Já escrevi sobre sua história.
Conheci-a na década de oitenta. Foi das primeiras mulheres que aderiu à Pastoral da Mulher. Seus olhos verdes transparentes e sua serenidade não pareciam carregar história de dor e enfermidade na alma.
No final da semana, o Padre Márcio Felipe de Souza Alves, Reitor do Santuário Santa Rita de Cássia, falou forte, em sua homilia, sobre o perdão e dentre as citações feitas, a de uma estrofe do Salmo responsorial 102(103): “Pois ele perdoa toda culpa/ e cura toda a tua enfermidade;/da sepultura ele salva a tua vida/ e te cerca de carinho e compaixão”.
Vem do Senhor, que nos deseja próximos, o apelo categórico para perdoarmos quem nos fez algum mal.
A moça de olhos transparentes chegou a Jundiaí com os pais e os irmãos de lugar distante. Primeiro moraram debaixo da ponte. O pai logo arranjou emprego, que possibilitou alugar dois cômodos. Para eles era um paraíso, depois da seca e da fome.
Completara nove anos, quando a mãe faleceu. Não havia chegado aos dez, ao pai substitui-la pela esposa. Por que ela e não as duas irmãs mais velhas? Talvez por seu jeito silente, com menos risco de ser denunciado. Isso aconteceu por um ano e meio. Uma vizinha, mulher prostituída, que ficou sabendo sobre o horror de suas noites de menina, disse-lhe que, se para sobreviver necessitava de um homem sobre ela, não fosse o pai.
Levou-a para um bar de meretrício onde ela comercializava o corpo e morava. Depois de alguns anos, passou a fazer “trottoir” na praça central. Naquela época que a conheci. Atualmente não nos vemos, mas trocamos emojis de ternura.
Voltando à reflexão do Padre Márcio Felipe. Comentou que Deus permanece sempre à nossa espera e, da mesma forma que Ele nos perdoa toda a culpa, devemos perdoar as dos outros. Manter em nós a raiva e o rancor nos adoece. Se perdoamos, deixamos o Senhor livre para sarar as feridas de nosso coração e alcançarmos a paz.
Se optamos por Deus, temos que fazer as escolhas dEle e não as escolhas do demônio. Não perdoar é contraditório para quem deseja seguir Jesus.
Encontramo-nos ao acolher a cruz do perdão, não é fácil, e nos desencontramos quando a rejeitamos.
Rezamos o Pai Nosso e renunciamos a perdoar. Usamos a nossa voz e calamos a voz do próximo. Não significa que, ao perdoarmos, nos esquecemos daquilo que aconteceu, mas nos permitimos, perdoando, contar com Jesus. Quem perdoa assume a cruz e, nessa cruz, o Senhor nos abraça. Nós pertencemos a Deus e Ele nos apresenta cruz que nos ajuda a carregar.
Uns seis anos depois que ela participava, semanalmente, das reuniões de evangelização da Pastoral da Mulher, falou-me que iria se afastar. Decidira retornar à casa paterna para lhe oferecer o perdão e a reconciliação. Encontrou-o enfermo, acamado, com uma doença incurável. Os irmãos haviam tomado cada um o seu rumo. Ela decidiu cuidar dele por um ano e meio, até a morte, e ele chorava de arrependimento ao vê-la. O mesmo tempo que foi abusada.
Emocionado com a Palavra, o Padre Márcio Felipe proclamou a Oração Eucarística Sobre a Reconciliação: “Constantemente nos chamais a uma vida mais plena e, porque sois rico em misericórdia, sempre ofereceis o perdão e convidais os pecadores a confiar somente na vossa bondade. E a nós, que tantas vezes quebramos a vossa aliança, nunca nos rejeitastes...”
Peço a Deus que me faça do perdoar em todas as horas.
Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista