14 de setembro de 2026
CONSTRUÇÃO IRREGULAR

Criança é a 6ª morte em desabamento; sócio de construtora é preso

Por Leandro Machado e Jorge Abreu | da Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min
Reprodução/captura de tela/Youtube
O corpo da criança foi retirado do local no início da tarde e as buscas foram finalizadas.

Os bombeiros localizaram na manhã deste domingo (13) o corpo de uma menina de sete anos, aumentando para seis o número de mortos no desabamento de um prédio sobre uma casa, na Penha, zona leste de São Paulo. Segundo a Prefeitura de São Paulo, o prédio estava irregular.

O corpo foi retirado do local no início da tarde e as buscas foram finalizadas.

A edificação ruiu por volta das 2h de sábado (12) na rua Tequici. Os escombros atingiram uma residência vizinha, em que morava uma família de imigrantes bolivianos. Além de casa, o imóvel também abrigava a oficina de costura em que eles trabalhavam.

Morreram Edelmira Titicayo Limachi, 26, seu marido Brayan Gery Gutierrez, 29, e o irmão dela Sergio Titicayo Limachi; Maria Elena Ramirez Titicayo e sua filha Shaira Diana Chinó Ramirez, 7; e Ana Lucia Ruiz Romero, 38.

As vítimas viviam havia nove anos no Brasil, segundo a polícia. Patrícia Veiga, advogada do Consulado da Bolívia, afirmou que o órgão está tentando viabilizar o transporte das vítimas para a cidade de Oruro, na Bolívia.

"Esse foi o pedido da família. Eles tinham se mudado para a casa havia um mês. Nós acreditamos que não foi um acidente, e sim um homicídio. As condições daquele prédio eram muito precárias", diz.

A operação de resgate durou mais de 24 horas e mobilizou equipes do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil e da Prefeitura de São Paulo.

Um homem e uma menina de 5 anos foram resgatados com vida. Eles tiveram ferimentos leves, entre contusões e escoriações.

A Polícia Civil também prendeu neste domingo Ronaldo Vivacqua. Segundo a polícia, ele seria um "sócio oculto" da New Home Construtora, responsável pela obra do prédio.

A Justiça também determinou a prisão temporária do engenheiro Cristiano Vivacqua, filho de Ronaldo e responsável legal pela empresa, e Isis Brandão, sua mulher e também proprietária da construtora. O casal é considerado foragido.

Adelmo Silva, advogado da New Home e dos três investigados, afirma que uma decisão judicial autorizava as obras da edificação. Ele ainda diz que o casal vai se apresentar à polícia nos próximos dias.

Segundo a polícia, a construtora não cumpriu um alvará da prefeitura que previa a demolição do prédio para a construção de uma nova edificação no local.

"Ao longo da diligência, analisamos documentos e o histórico da construção. Isso nos levou à desconfiança de que não foi um imprevisto e que os responsáveis poderiam ter conhecimento da fragilidade da obra", diz a delegada Deidiene Fialho Eboli Prado, do 24º DP (Ponte Rasa).

As causas do desabamento ainda serão investigadas a partir da perícia.

Segundo a prefeitura, a construção começou em 2019 e foi interditada, após a gestão municipal detectar problemas na estrutura. Como a construtora não interrompeu a obra, mesmo após diversas multas, a Procuradoria Geral do Município entrou com uma ação judicial, em 2021, para suspensão imediata dos trabalhos no local.

A construtora apresentou um novo projeto em 2022 e um alvará foi emitido em 2023, com a determinação de que a estrutura existente fosse demolida para a construção de uma nova.

"Quando esse alvará foi dado pela prefeitura, o prédio tinha cinco andares, e não nove andares como estava antes de desabar. Havia um processo judicial que pediu a demolição e, nesse alvará, havia essa condicionante de demolição para a construção de um novo prédio", diz a delegada Deidiene Prado.

O advogado da construtora afirma que uma decisão judicial de março de 2025 autorizava a continuidade das obras no prédio que desabou e que vai apresentar a decisão à polícia.

"Após vistoria da prefeitura, houve uma decisão da Justiça autorizando a obra", disse.

Silva afirma que a obra do prédio estava parada por falta de recursos financeiros e que o desabamento pode estar relacionada a uma outra obra que ocorria na rua de trás ao prédio. "As investigações e perícias vão esclarecer o que aconteceu."

Servidora que vistoriou obra foi afastada

A Subprefeitura da Penha afastou por 30 dias, para apuração dos fatos, a servidora que vistoriou a obra em 2024 e atestou que a demolição do prédio havia sido feita.

"Ela não pode continuar no cargo nesse momento para não atrapalhar a nossa investigação interna. Nós também já estamos com a Polícia Civil para haver uma investigação criminal a respeito disso e entendermos o que aconteceu", disse o controlador-geral do Município, Daniel Falcão, na noite de sábado.

Segundo o prefeito Ricardo Nunes (MDB), técnicos da prefeitura verificaram, junto a vizinhos e por meio de imagens de satélite, que a demolição da edificação não foi feita. O nome da servidora não foi divulgado.