05 de outubro de 2026
OPINIÃO

Laura engoliu o mundo


| Tempo de leitura: 3 min

Quando a Laura, uma senhora de quarenta e poucos anos muito simpática e comunicativa, chegou até mim no meu consultório, havia um detalhe que me chamava a atenção no sorriso dela que eu não conseguia definir direito o que era.

 

Ainda que um sorriso largo e sincero, havia algo que eu não conseguia definir por detrás de feições desgastadas para além do que a idade sugere. Não me parecia que ela estivesse forçando, mas algo não encontrava sustentação na realidade. Começou contando para mim sua história, de como havia escolhido ser professora de educação infantil por vocação, tomando a missão de educar tantas crianças quanto conseguisse.

Entendi bem o que ela disse. Visto como o ensino do nosso país é pouco valorizado, a escolha pelo magistério nos dias de hoje é mais do que uma vocação, se tornando quase uma convocação celestial. Claro que depois de décadas de dedicação irrestrita os professores e seus ideais se ressentem, quase sempre vencidos pelo descaso que vem do governo e da coordenação, mas também de onde estão os que são “salvos” pelo sacrifício da própria saúde: os alunos e seus pais.

Laura então se juntava à verdadeira legião de professores que já atendi com os sintomas mais variados, mas sempre relacionados a emoções descompensadas e sentimentos de raiva, revolta, mágoa e tristeza. Fisicamente, eles apresentavam diferentes graus de doenças autoimunes e reincidências em tendinites, enxaquecas e vertigens.

No entanto, Laura conseguia mostrar na própria história um aspecto diferente no processo de adoecimento dela. Enquanto ela me explicava que gostava de todas as coisas “perfeitas” , sempre se cobrando muito, eu segui minha intuição e disparei a pergunta “à queima-roupa”:

- Quem era assim na sua família, Laura? Quem resolvia todos os problemas sozinha, sendo muito pouco reconhecida por isso?

- “Minha avó” – ela respondeu de “bate-pronto”. Eu não sabia deste detalhe, me arrisquei complemente na minha pergunta, mas capturei o palpite nas entrelinhas de como ela me falava.

O comportamento de “salvador” (sim, este é um termo técnico de psicologia transpessoal) é frequentemente motivado pela percepção de algum ancestral que se sacrificou pessoalmente para o sucesso da família. O comum, então, que este ancestral receba “amor” e admiração das gerações subsequentes através da imitação dos sacrifícios.

Quando eu comentei isso com Laura, ela se impressionou e disse que fazia muito sentido, o que me deixou bem feliz. só que eu sei que isso é ainda insuficiente. A consciência do processo que “enredou” a percepção é um bom começo, mas não a transformação completa na direção da cura, pois Laura ainda não conseguia se desvencilhar emocionalmente das percepções que adquiriu ainda na infância.

Ainda bebê, antes mesmo de saber o que era “Bem” e “Mal”, ela percebia com o cérebro mais instintivo somente o que era necessário para sobreviver e se ligava afetivamente aos adultos que lhe garantiam isto. Por estas pessoas ela ainda trabalha hoje, engolindo o mundo inteiro de tarefas e compromissos, sem se permitir questionar se o “sacrifício” que estas mulheres faziam era para, inclusive, evitar que ela tivesse que repetir a sina delas, quando adulta.

 

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina chinesa, osteopatia e inteligência sistêmica.