A lógica de Deus não é a do mundo, não é a minha, embora peça a Ele que transforme meu coração. O próprio Jesus, ao ser questionado por Pilatos, disse: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo os meus súditos certamente teriam pelejado para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é deste mundo. Sim, eu sou rei. É para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo. Todo o que é da verdade ouve a minha voz” (João 18, 36.37).
Um exemplo: um moço da periferia morre baleado na madrugada fria. Não era um exemplo para a comunidade, no entanto possuía uma dose de carinho para os menores e maiores de sua casa. Exaltado, era capaz de cometer barbaridades e fazer famílias e amigos chorarem
Ninguém pergunta como fora antes. Teria sido vítima de um pai que, desequilibrado, colocava os seus bebês em um formigueiro a fim de que aprendessem a lição e não chorassem mais? E a mesma coisa nos dias posteriores. Você pode não acreditar que aconteça isso, mas infelizmente ocorre, entre muros, e os temerosos não denunciam ao Conselho Tutelar. Você tem ideia do horror dessas crianças, que ainda não andam, ao sentirem a dor das ferroadas? Quanto mais se rolam no chão, as formigas mordem. Que fica na cabecinha e no coração do bebê?
A mamãe contava que, aos dois anos e meio, sentei em um formigueiro. O berreiro chegou à vizinhança. Prontamente atendida por ela, como era manhosa chorei uns três dias e desejava colo.
Imagine quando um pequenino é colocado no formigueiro de propósito, sem cuidados imediatos. Retém a dor em sua memória e emoções, creio eu.
Ninguém pergunta como fora antes. Teria passado por uma instituição a curto prazo, onde detectaram seus problemas todos, porém interromperam o tratamento e nem encaminharam para um serviço que tratasse seus impulsos sem raciocínio algum?
Com esses aspectos a pessoa entra na lógica de uma música do meu tempo, criada por Roberto Caros e Erasmo Carlos, “O Homem Mau”: “Eu vou contar pra todos, a história de um rapaz/ Que tinha há muito tempo, a fama de ser mau/ Seu nome era temido, sabia atirar bem. (...) Todos que o desafiavam, tinham seu final. / Mas eis que numa tarde, alguém apareceu/ Com ele quis lutar e o mundo até tremeu/ Marcaram numa esquina, /antes do pôr do sol/ E todos já sabiam, que um ia morrer. (...) Chegando então a hora, do outro encontrar/ Chegando na esquina, parou para olhar/ O outro estava firme, com a arma na mão/ Fazia grande alarde, fazendo sensação/ O homem mau então, quis logo matar/ E no valentão, quis logo atirar. / E depois de um tiroteio, todo o mundo estremeceu/ Quando um grito se ouviu, o homem mau morreu”.
No meu contato de há décadas com os excluídos, o meu conceito de homem mau mudou. Mau é quem impede direitos iguais para todos. Aquilo que as pessoas farão com seus direitos aí sim é uma escolha dela, dele. Mau é quem judia de crianças. Mau é quem não possibilita tratamento adequado com continuidade aos que apresentam problemas na saúde mental desde a infância. E outros tantos.
O moço baleado, naquele dia, deixou sua Bíblia marcada no Salmo 87 (Heb. 88): “Senhor, meu Deus, de dia clamo a vós, / e de noite vos dirijo o meu lamento. / Chegue até vós a minha prece, / inclinai vossos ouvidos à minha súplica. / Minha alma está saturada de males, e próxima da região dos mortos a minha vida...” Embora com seus desajustes, chamou por Deus.
Como disse o Padre Márcio Felipe de Souza Alves, em sua homilia de domingo, “Deus está sempre de plantão em Seu Amor” e não nas maledicências e nos julgamentos.
Maria Cristina Castilho de Andrade é Professora e cronista