01 de outubro de 2026
OPINIÃO

A política precisa voltar para a cidade


| Tempo de leitura: 3 min

Mais uma vez passamos por uma eleição geral. E tenho a impressão de que, a cada ciclo, nossas eleições ficam mais chatas, previsíveis e distantes da vida real das pessoas. Em parte, isso é consequência de sucessivas mudanças na legislação eleitoral que, desde meados dos anos 2000, prometem aperfeiçoar a democracia, mas pouco fizeram para melhorar a qualidade da representação política.

Criamos cláusula de barreira, fundo eleitoral, acabamos com o financiamento empresarial de campanhas e estabelecemos uma infinidade de restrições. Particularmente, considero o fim absoluto do financiamento privado um equívoco. Em vez de simplesmente proibir, deveríamos discutir transparência e mecanismos rigorosos de controle. Também não consigo compreender por que um showmício, uma alimentação oferecida em um evento político ou outras formas tradicionais de mobilização precisam ser tratados como grandes ameaças à democracia.

O resultado é uma eleição cada vez menos presente nas ruas e cada vez mais dependente das redes sociais. E talvez esteja aí uma das grandes contradições do nosso tempo: restringimos a política no mundo real e a empurramos para um ambiente digital onde prevalecem algoritmos, radicalização, frases curtas e discursos feitos para provocar indignação.

A consequência é conhecida. De um lado, candidatos falando em segurança pública, aumento de penas, família, religião e valores. Do outro, discursos sobre direitos das mulheres, população LGBT e diferentes pautas identitárias. Somam-se ainda inúmeros candidatos que se apresentam como representantes desta ou daquela causa específica, como a defesa dos animais.

Todas essas questões podem ser legítimas. O problema começa quando a política se transforma apenas em um conjunto de bandeiras desconectadas da realidade cotidiana.

Está faltando municipalismo.

Não consigo imaginar qualquer região deste país funcionando adequadamente sem representação política comprometida com seus municípios. É nas cidades que as pessoas vivem. É ali que estão a escola do filho, a unidade de saúde, o transporte, a iluminação, o emprego, a praça, o problema habitacional e boa parte das dificuldades que determinam concretamente a qualidade de vida de uma família.

Até mesmo a segurança pública costuma ser discutida de maneira excessivamente abstrata. Mais do que repetir que precisamos construir presídios ou aumentar penas, precisamos falar em sensação de segurança. Segurança é uma mãe poder deixar o filho adolescente brincar em um parque sem passar a tarde inteira angustiada. É uma pessoa poder caminhar pela cidade, frequentar uma praça e voltar para casa tranquilamente.

E existe ainda uma ameaça gigantesca sobre a qual a política fala muito pouco: a exposição de crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis ao ambiente digital.

Precisamos discutir seriamente regras, responsabilidades, ética e limites para as redes sociais. Quem sofre mais com a ausência desses mecanismos são justamente as famílias mais vulneráveis. É a mãe que precisa trabalhar o dia inteiro e não tem condições de acompanhar permanentemente o que o filho acessa. É o adolescente que permanece horas sozinho diante de uma tela, exposto a violência, golpes, assédio, apostas, conteúdos destrutivos e todo tipo de influência.

Isso não deveria ser assunto de direita ou de esquerda.

Aliás, diante das transformações sociais e geopolíticas deste momento histórico, talvez seja justamente essa divisão permanente que esteja nos impedindo de enfrentar os problemas que realmente importam.

Precisamos voltar a falar da cidade, da comunidade e principalmente da escola.

Acredito que precisamos recuperar a escola como grande centro de convivência. Um lugar onde crianças e adolescentes aprendam matemática, português e ciências, mas também convivência, responsabilidade, esporte, cultura, cidadania e preparação para a vida.

Isso exige política pública forte. E política pública eficiente exige municípios fortes.

Talvez esteja na hora de nossas eleições voltarem a discutir menos aquilo que separa as pessoas e mais aquilo que acontece na rua onde elas vivem.

Porque, no final, é no município que a vida acontece.

Marcelo Souza é advogado