Eu sou movida a desafios. Sempre fui. Talvez porque tenha aprendido muito cedo que o movimento dá um gostinho especial à vida. Quando criança, enquanto muitas pessoas escolhiam uma atividade, eu queria experimentar várias. Nadava e fazia balé clássico dos 5 aos 12 anos, sempre experimentando todos os esportes possíveis na escola. Após os 14 consegui uma combinação ainda mais improvável: balé, polo aquático e capoeira.
E isso incomodava algumas pessoas. Houve um professor de balé que não entendia como uma bailarina poderia entrar em uma piscina para jogar polo aquático e ainda lutar capoeira. Fui julgada por ser eclética, como se precisássemos escolher uma única versão de nós mesmos.
Nunca consegui viver assim. Para mim, o movimento sempre foi vida. Aos 23 vieram as maratonas aquáticas e descobri que podia trocar as raias da piscina pela imensidão do mar. Depois vieram travessias, voltas em ilhas e aventuras que, confesso, algumas vezes quase deram errado. Mas vieram também histórias que jamais teria vivido se tivesse escolhido permanecer apenas onde era seguro.
E continuo assim. Quando descubro uma prova diferente, uma corrida em um lugar bonito ou uma competição que mistura corrida e natação, algo desperta dentro de mim. Imagino, planejo, treino. Termino uma e logo estou procurando a próxima.
Isso não significa abandonar minhas responsabilidades para viver aventuras. É justamente o contrário. Eu trabalho, estudo, cuido da minha família, da minha casa, dos meus alunos e dos meus projetos. Procuro evoluir profissionalmente e estar presente para aqueles que
amo. Mas aprendi que, no meio de tantas obrigações, precisamos reservar um espaço para aquilo que faz os nossos olhos brilharem.
Esse é o meu prêmio! E existe uma explicação para essa sensação. Quando estabelecemos uma meta e avançamos em direção a ela, ativamos circuitos cerebrais ligados à motivação e à recompensa, nos quais a dopamina tem papel importante. Quando o desafio envolve exercícios, endorfinas e endocanabinoides também participam da sensação de bem-estar, enquanto o movimento favorece mecanismos relacionados à neuroplasticidade e à saúde cerebral.
Talvez por isso um desafio possa significar muito mais do que completar uma prova. Existe a expectativa, a preparação, a superação e aquela deliciosa sensação de perceber: “eu ainda consigo”.
E a aventura não precisa ser esporte. Pode ser aprender um instrumento, dançar, viajar, cuidar de um jardim, voltar a estudar, começar um hobby ou correr os primeiros quilômetros.
Precisamos de responsabilidades. Mas também precisamos de encantamento. Eu já me
excedi, já me machuquei, precisei parar, recuperar e começar novamente. Hoje entendo que desafiar-se também significa aprender a escutar o corpo. Mas não quero perder aquela menina que acreditava ser perfeitamente possível sair da piscina e ir para o balé, e ainda encontrar espaço para a capoeira.
Ela continua aqui. É ela que, depois de cada chegada, começa a procurar uma nova partida. Talvez a felicidade não seja viver permanentemente em estado de alegria. Talvez seja ter alguma coisa no horizonte que desperte curiosidade, entusiasmo e vontade de continuar caminhando.
Por isso, encontre a sua aventura. Não precisa ser a minha, nem parecer grandiosa aos olhos de ninguém. Precisa apenas fazer sentido para você.
Porque, algumas vezes, o maior prêmio de uma aventura não está na medalha, na chegada ou na fotografia. Está na pessoa que encontramos em nós mesmos durante todo o caminho. Muita saúde a todos.
Liciana Rossi é especialista em coluna e treinamento corretivo. Pioneira do método ELDOA no Brasil