20 de setembro de 2026
OPINIÃO

Em três momentos


| Tempo de leitura: 3 min

O primeiro momento foi com ela que sempre se manifesta após ouvir a Palavra de Deus. Se lúcida, sem ter ingerido aguardente, derrama suas dores, que ameniza diante da proteção do Céu. Se embriagada, inúmeras vezes com palavras desconexas, diz das dificuldades e impossibilidades tantas. 

Muitos dos filhos são lembranças e saudades após a adoção ao se constatar que ela e o companheiro não tinham como criar. Um dos que ficou e mora com eles, maior de idade, é motivo de desânimo e desencanto. Aquilo que encontrar, dentro do barraco, que seja possível comercializar, transforma em pedra de crack. O marido e ela olham carros para sobreviver. Panelas foram todas. Das de pressão, que lhe doaram, foram cinco. Todas consumidas ou “pipadas” como dizem na linguagem das “biqueiras”. Os dois fogões, com seus respectivos botijões, igualmente. Para cozinhar, o casal improvisou uma espécie de fogão a lenha. 

Nasceu em situação de pobreza. O prédio da escola era próximo, contudo a equipe a via com distância. Talvez não a visse, pois integra o invisíveis da sociedade. As primeiras dores e sentimentos confusos vieram do abuso sexual, ainda menininha, pelo padrasto. Calou-se por se sentir impotente diante do homem grande, que cheirava maconha misturada com cachaça. Fungava diante dela como o cachorro policial do vizinho. O desejo feroz e bestial dele se misturava ao horror dela. Passou o tempo, a mãe faleceu, do padrasto não se sabe e ela percorre a vida com o companheiro, criado em orfanato. 

Ela sente falta da mãe e, até há pouco tempo, guardava a imagem de Nossa Senhora Aparecida, que ela lhe deixara como herança. Em um momento de desespero da abstinência, o filho a quebrou. Sentiu tanto! Como se perdesse a mãe pela segunda vez. 

Ficaram, para os irmãos, três barracos. Ela reside no que está em piores condições. O melhor se encontra alugado, contudo a irmã, em situação menos difícil que ela, não reparte uma moeda. Consola-se em Deus que vê a sua dor. 

O segundo momento foi na Missa vespertina do último sábado em que o Padre Márcio Felipe de Souza Alves, Reitor do Santuário Diocesano Santa Rita de Cássia, em sua homilia, ao abordar o Evangelho de São Mateus (16,21-27), no qual Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da Lei e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia, concluiu que: “Quem pensa em Deus, pensa no Amor, como diz a música do Padre Zezinho. E quem pensa no Amor escolhe o caminho da Cruz”. Acrescentou que Deus não prometeu nem sucesso e nem uma vida fácil. O Seu pensamento não segue a lógica dos homens. Padre Márcio Felipe enfatizou o que disse Jesus: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la”. As duas condições propostas: renegar-se a si mesmo e tomar a sua cruz. 

No terceiro momento, me retorna a moça. Esse sofrimento todo, pelo qual ela passa, é a desastrosa condição do mundo que condena incontáveis pessoas à miséria e não entra na Cruz que convida à partilha. Condição que perturba a vida da moça e abala seu equilíbrio psicológico.

Padre Márcio Felipe destaca também a Carta de São Paulo aos Romanos (12, 1-2), que nos chama a não nos conformarmos com o mundo, mas a transformá-lo, renovando nossa maneira de pensar e de julgar, para podermos distinguir o que é da vontade de Deus. 

Concluo que, ao pensar na moça, devo escolher o Amor, mesmo estando no caminho da Cruz.

 

 

 

Maria Cristina Castilho de Andrade

Professora e cronista