11 de setembro de 2026
OPINIÃO

O impacto das bets


| Tempo de leitura: 3 min

O avanço das apostas digitais no Brasil deixou de ser uma questão de entretenimento individual e passou a impactar diretamente os ambientes de trabalho e familiar, além da saúde pública no país. Dados da pesquisa Raio-X do Investidor Brasileiro, realizada pela Anbima em parceria com o Datafolha, revelam a dimensão desse fenômeno: cerca de 17% da população brasileira com mais de 16 anos declara apostar online em bets. Mais do que isso, um quinto desse grupo admite jogar diariamente. Em meio a essa expansão, surge a necessidade de uma tomada de consciência individual sobre as próprias escolhas, considerando que 57% dos que apostam já reconhecem que essas plataformas virtuais têm potencial para causar dependência.

Internacionalmente, o impacto do jogo online compulsivo também se consolidou como uma preocupação global. Países como o Reino Unido, Espanha, Austrália e Estados Unidos enfrentam desafios crescentes relacionados ao aumento do endividamento das famílias, queda na produtividade do trabalhador e pressão sobre os sistemas de saúde mental. A experiência internacional demonstra que a facilidade de acesso às plataformas via dispositivos móveis exige atenção contínua das nações para os riscos de vício e perda do controle financeiro.

As características desse quadro envolvem a perda do controle pessoal sobre o ato de apostar, a prioridade dada ao jogo frente às obrigações do dia a dia e a persistência na prática mesmo diante de prejuízos. Como consequência direta na rotina das empresas, observam-se a queda na produtividade, a dificuldade de foco, o aumento de erros e atrasos, além de oscilações de humor. Cada indivíduo precisa estar atento aos próprios comportamentos e aos primeiros sinais de desequilíbrio, assumindo o protagonismo na busca por limites e no cuidado com sua estabilidade pessoal.

Atentas a essa realidade e à importância da conscientização individual no setor fabril, entidades ligadas à indústria têm estruturado ações educativas. O Sesi-SP e o Senai-SP, importantes entidades parceiras do Ciesp no suporte e desenvolvimento do setor produtivo, criaram uma cartilha voltada aos trabalhadores. O material estimula o autocuidado e a responsabilidade de cada um com suas decisões, abordando a diferença fundamental entre lazer e fonte de renda, além de alertar que tratar o jogo como ganho financeiro traz forte instabilidade ao orçamento familiar. A publicação detalha a trajetória da empolgação inicial até a perda de controle, descreve sinais mentais de alerta e destaca os riscos operacionais no ambiente fabril, onde a desatenção individual eleva o risco de acidentes. Ao final, reforça a importância da disciplina no planejamento financeiro.

 A gravidade do tema motivou também a reação de outros segmentos econômicos. Em reportagem sobre o assunto, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) fez uma analogia ao declarar que o vício em apostas representa o novo alcoolismo no ambiente corporativo. A entidade destacou o enorme desafio enfrentado pelas empresas e reforçou a urgência de que a questão seja tratada com seriedade por todos os envolvidos no mercado de trabalho.

A superação desse desafio requer um olhar acolhedor e livre de julgamentos, compreendendo que reconhecer a necessidade de impor limites e pedir apoio não é um sinal de fraqueza, mas um ato de coragem. Afinal, as perdas mais profundas atingem diretamente a saúde mental do próprio indivíduo e a harmonia do seu lar. Nesse contexto, o acolhimento coletivo é fundamental para que cada pessoa se sinta encorajada a refletir e buscar ajuda, lembrando sempre que o autocuidado é um compromisso individual e intransferível com a própria saúde física e mental.

 

 

*FRANCESCONI JÚNIOR é primeiro vice-presidente do Ciesp e diretor da Fiesp