Depois de dezenas de artigos sobre árvores nas calçadas que a Opinião publicou, volto a tocar nesse assunto, agora por novas razões. Uma outra visão sobre árvores urbanas nas cidades foi publicada no The New York Times neste dia 20 por pesquisadores da Escola de Medicina Feinberg, da Northwestern University, resultado de estudo que relaciona o tamanho das copas das árvores e a melhora da saúde da população com a diminuição da taxa de mortalidade.
“A diminuição das mortes por doenças crônicas — incluindo condições respiratórias e cardiovasculares, assim como por doenças mentais — e as árvores impulsionaram, em parte, esse avanço da longevidade. Entre os bairros mais quentes, os modelos de interação entre cobertura vegetal e temperatura demonstraram que as áreas que apresentavam maiores perdas de cobertura vegetal de um ano para o outro tinham maior mortalidade anual”, disse Harrison C. Garcia, principal pesquisador do estudo “Aumento da cobertura arbórea urbana associado à redução da mortalidade: uma análise longitudinal de bairros de Chicago”.
Quando uma árvore desaparece, perde-se também parte da memória e da identidade de um lugar. É o que acontece em bairros como o Jardim Rio Branco, onde os antigos ipês-amarelos formavam, durante a floração, uma paisagem singular que marcou gerações. O mesmo pode ser dito das árvores do Parque do Colégio, Vila Arens e de qualquer lugar onde não há árvores, que dá a impressão de que toda a área urbana
Uma árvore adulta não pode ser substituída simplesmente por uma muda. São décadas de crescimento, sombra, flores, abrigo para a fauna, redução da temperatura e contribuição para a paisagem.
O problema é que ainda tratamos a árvore como um obstáculo técnico. Raízes que levantam calçadas, proximidade das redes elétricas ou galhos que oferecem risco são questões reais, mas não deveriam conduzir automaticamente à supressão. Podas inadequadas mutilam copas, deformam árvores e muitas vezes criam novos problemas e, consequentemente, provocam a morte do indivíduo arbóreo. Agora, conforme o estudo, a advertência é que essas perdas podem impactar diretamente a saúde da população.
A árvore precisa ser entendida como infraestrutura ambiental, assim como a iluminação, a drenagem e a pavimentação. Em tempos de temperaturas cada vez mais elevadas, oferecer sombra e reduzir as ilhas de calor não é luxo, e agora manter as árvores mais velhas e as grandes copas também é questão de saúde.
Para isso, não bastam novas leis. É preciso diagnóstico, fiscalização, planejamento e, sobretudo, uma mudança de mentalidade. A árvore não deve ser lembrada apenas quando cai, incomoda, é queimada ou, por outros motivos, é retirada. Deve ser cuidada enquanto cresce. Uma cidade verdadeiramente contemporânea não é aquela que elimina seus obstáculos para ficar mais lisa e rápida, mas aquela que sabe conviver com aquilo que lhe oferece sombra, beleza, memória e vida. Preservar as árvores é, afinal, preservar e prolongar a vida e a saúde.
Essa relação, se bem divulgada, vai provocar o interesse dos moradores na conservação de árvores em frente às suas casas. Porque viverão mais!
Eduardo Carlos Pereira é arquiteto e urbanista