22 de setembro de 2026
OPINIÃO

Triste tigre


| Tempo de leitura: 3 min

Acabo de ler “Triste Tigre” de Neige Sinno.

Neige Sinno é escritora, tradutora e professora de literatura especializada em literatura americana. Atualmente, reside no País Basco francês. Recebeu, por “Triste Tigre”, diversos prêmios na Europa, se tornou best-seller e foi traduzido em mais de vinte países. 

        Esse livro é um depoimento às claras, avassalador e intenso sobre abuso sexual infantojuvenil. Neige foi estuprada pelo padrasto dos sete aos catorze anos. Aos dezenove, depois de deixar a casa em que vivia com a família, contou à mãe sobre os abusos. As duas denunciaram o padrasto. Condenado a nove anos, mas cumprindo apenas cinco pelo bom comportamento. 

          Na publicação, ela tenta fazer um retrato dos abusadores e conclui que não possuem um perfil típico. A maioria, no entanto, é do sexo masculino, embora uma vez ouvi que há muitas mulheres abusadoras, porém não deixam sinais físicos.

         São eles manipuladores, consideram-se em superioridade, dominam alguém mais fraco e sentem prazer no sofrimento da vítima. O padrasto usou, como argumento de defesa, a dificuldade de relacionamento com a menina, ao morar junto com mãe, com quem se casou posteriormente. O único jeito seria sexualmente.  

       Declarou que foi insuportável ser rejeitado pela criança, que o considerava impossível de amar, portanto enxergou como único caminho, para entrar em contato com ela, a sexualidade. O estupro era necessário para ensiná-la a obedecer. Sobressaía, em sua personalidade, não suportar contestação, controlar tudo, decidir, vigiar, castigar e jamais compartilhar poder. Era ela uma criança e, como declara, não conseguiria abrir ou fechar a porta do consentimento.

       Para os abusadores, a agressão é uma maneira de dominar, de sujeitar o outro, que vai além das formas possíveis. Os estupros lhe dão a sensação de serem um super-homem. Ele podia decidir sobre sua vida ou sua morte.

      As vítimas, algumas vezes, se consolam considerando que se não contar para ninguém não existe; deve ter feito alguma coisa para merecer isso, alguma coisa em mim o provoca; ele me faz isso porque sou a sua preferida, ele me escolheu porque me a ama; é uma adversidade da vida. 

      A autora gostaria de saber se o seu carrasco sente remorso. Na fala, ele vive em estado de negação. Será que ele pensa sobre seu crescimento sem infância, sem inocência, sem ilusões por culpa dele? Talvez, ao contrário, ele tenha lembranças do prazer que sentiu ao sujeitá-la à sensação de domínio absoluto.

      Seu livro reúne memória, análise literária e reflexão social, abordando o trauma, o silêncio e as estruturas que sustentam o abuso.

      Com 49 anos, foi junto aos amigos da universidade que teve forças para denunciá-lo, com o propósito de proteger outras crianças e exigir justiça. Calar-se é uma traição.

     Acreditou, porém, que estava livre, mas diz que “nunca se está completamente livre, já que nada acaba de fato e, mesmo se você se torna outra pessoa, essa parte sombria também segue em frente”. Possui pesadelos com ele, onde a persegue para estuprá-la. Sua parte, considerada maldita por ela, não foi para muito longe, ouve com frequência o fôlego curto dele, sua voz entrecortada e o vê no espelho. 

     Em contato com o abuso sexual infantojuvenil, desde 1968, ao me tornar voluntária em um orfanato e, mais tarde, no convívio com mulheres pobres em situação de prostituição – a maioria abusada na infância – comovo-me e testemunho que é um acontecimento funesto, que marca a vítima para sempre.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista