23 de agosto de 2026
OPINIÃO

A força do voto feminino só na eleição


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Causa-me indignação, mas não espanto que a causa feminina seja usada como força de voto por candidatos que nunca avançaram no combate à violência contra as mulheres ou mesmo na igualdade de renda e oportunidades para nosotras. Obviamente que agora estão preocupados com os votos femininos, já que somos a maioria dos eleitores (52,8%).

Mais uma vez, meus queridos leitores, eu não aponto nenhuma ideologia (ou seita) porque todos os candidatos – independentemente das siglas - estão usando um discurso para se aproximar das nossas mazelas. E poucos avançaram na política pública feminina de fato, à  esquerda ou à direita,  já que os casos de violência só aumentam no Brasil e no estado de São Paulo. Os especialistas em segurança pública apontam que estamos diminuindo os crimes contra o patrimônio, mas aumentando a violência doméstica.

Ou seja, estão aí por 4, 8, 12 anos ou mais e não foram ao cerne do combate ao crime doméstico. E há várias explicações, mas a que mais me chama a atenção é que eles também fazem parte do patriarcado, alguns têm ficha criminal de violência doméstica e outros abraçam em seus secretariados homens que também são criminosos domésticos.

Como vimos no crime cometido no último final de semana, de um empresário faria limer contra sua mulher, até os seguranças da rua apoiaram o espancamento público dela. Ninguém saiu à via pública para defendê-la ou sequer chamou a polícia.  Por quê? Porque há uma cultura machista no Brasil. Como se o espancamento de uma mulher fosse um crime menor.

Há pouca estrutura nas delegacias das mulheres. Pouquíssimo ou quase nenhum acolhimento posterior ao crime. Muitas têm de deixar suas casas, sem empregos e com os filhos embaixo do braço. As medidas protetivas nem sempre funcionam, pois os homens insistem em matá-las a sangue frio. Se formos pensar em prevenção, não avançamos em nada. No máximo, em aumento da campanha para denunciar o crime nas televisões.

Insisto. Para mudar esta cultura é preciso que haja ensino obrigatório sobre igualdade de gênero desde a mais tenra idade. Uma conscientização de que o corpo da mulher só pode ser tocado com sua anuência. Combater a pedofilia dentro das casas, insistir para que as crianças tenham educação sexual e espaço de acolhimento nas escolas. As pesquisas apontam que as escolas são os melhores locais de escuta para a criança abusada.  Sem contar em combater a sexualização precoce de nossas meninas, com roupas e comportamentos inadequados à idade, e relacionamentos abusivos desde a adolescência, dominadas pela pressão do mercado. Esta cultura da beleza e da submissão escraviza nossas meninas desde sempre.

Os meninos, acuados, cedem aos red pills porque também não têm acolhimento, espaço de escuta na sociedade. E essa violência interiorizada é expressa pelo alvo mais frágil – as mulheres. Não haverá avanço se também não educarmos melhor nossos meninos. A maioria cresce sem uma figura masculina. A maioria não tem acesso ao serviço social ou psicológico. A maioria vê, na própria mãe, o abuso diário.

Para a mudança, insisto ainda em algo mais relevante. Apesar de maioria no eleitorado, somos apenas 20% das casas legislativas brasileiras. Na hora de votar, mulher vota em mulher. Eu já escolhi minhas candidatas e você?

 

*Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ