15 de setembro de 2026
OPINIÃO

Os caminhos da angústia


| Tempo de leitura: 3 min

A medicina tradicional chinesa sempre me encantou e foi isto que me motivou a escolher a minha especialidade e mesmo a minha profissão médica. Desde o primeiro contato que tive com esta prática e seus conhecimentos, ainda adolescente e na posição de paciente, a ideia da unidade entre corpo e mente sempre me atraiu.

 

Hoje, já passados 25 anos estudando e trabalhando com esta ideia, continuo me encantando e surpreendendo como o modelo explica, com seus pontos e “meridianos”, os fluxos de energia, fluidos e mesmo de emoções no nosso corpo.

 

Lembro-me de um caso “icônico” que me ensinou muito sobre estes fluxos, logo nos primeiros anos de especialidade, relacionado com o sintoma de angústia, normalmente percebido como um “aperto no peito” e é relacionado com a tristeza e o luto de uma perda, bem comum de se encontrar na minha prática.

 

Tratava-se de uma menina, muito simpática e educada, que apareceu na clínica onde eu trabalhava, no bairro da Liberdade, em São Paulo. A mãe, inconformada, a trazia em busca de alguma solução para o problema dela, pois “nenhum médico conseguia resolver” (essa frase é bem comum, também).

 

A pequenina apresentava um sintoma incomum: a hematúria assintomática. Isso significa que ela perdia uma quantidade considerável de sangue com o seu fluxo de urina, o suficiente para observar a coloração vermelha no vaso sanitário, sem apresentar outros sintomas como dor ou odor acentuado, como seria de se esperar.

 

Ela já havia tratado uma suposta infecção com mais de um tipo de antibiótico, mas os exames só detectavam o sangue, sem bactérias. Já havia feito exames de imagem, como o ultrassom, mas nada de errado era visto, nem com a bexiga e nem com os rins. Fui procurado para ver o que poderia ajudar, usando uma visão complementar ao que os colegas já tinham feito.

 

Perguntei-lhe se relacionava a alteração na urina com algum fato e ela olhou para a mãe e depois olhou para mim, dizendo: “- Foi depois que a vovó foi para o céu!...”.

 

Bingo. Conversando com a mãe, soube que a avó ajudava muito na criação da criança, desde bebê, morando na casa ao lado. Ela falecera recentemente por causas naturais, mas o vazio que ela deixara na criança era evidente dada a presença no seu dia a dia.

 

Quando a dor é intensa demais para a mente compreender, o corpo se apresenta como uma ferramenta para auxiliar no luto. Dentro da medicina chinesa existe uma ligação energética entre o coração e a bexiga, feita por um “meridiano” que chamamos de Tai Yang. Uma das suas funções é descarregar o excesso de tensões nos órgãos vitais que possam causar sintomas como os que nós, adultos, identificamos como de angústia: aperto no peito, falta de ar, palpitações...

 

Essa criança não sentia nada disso e aparentemente aceitava muito bem o fato da partida da avó, contudo o processo a impactava tanto quanto os adultos, talvez até mais, evocando uma “solução” vinda de uma descarga neural que fazia a bexiga inflamar e soltar a tristeza e o inconformismo com um fluxo de urina e sangue, para longe da pequena.

 

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina tradicional chinesa, osteopatia e inteligência sistêmica.