20 de setembro de 2026
OPINIÃO

O PREÇO DA FARSA


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Crescemos ouvindo onde dito popular: “A mentira tem pernas curtas”. Trata-se de um alerta ancestral sobre a fragilidade do engano. Mesmo cientes de que é verdade, mais cedo ou mais tarde emerge das sombras. Muitos insistem em faltar com ela. E, quando a farsa é desmascarada, o abusador recorre, surrado e covarde, expediente do “pedir desculpas” ou do “era apenas uma brincadeira”.

Acontece que a mentira não é inofensiva. Quando se revela, o rastro costuma ser trágico, destrói reputações, induz pessoas de boa-fé ao erro, provoca danos e muitas vezes irreparáveis.

A gravidade do fenômeno ganha contornos dramáticos no período de campanha eleitoral, o palanque transforma-se em palco de ilusões, no qual candidatos prometem que viveremos o melhor dos mundos, enquanto usam a inverdade para desconstruir o adversário na tentativa desesperada de cooptar o eleitorado.

Entretanto, o uso político da mentira ganha sua versão mais perversa e destrutiva quando voltada ao apagamento histórico. A falsificação do passado perpetua uma história numa espécie de escravidão mental. Somos mantidos reféns de narrativas distorcidas ouvindo absurdos, manifestos como o de que “não existe racismo no Brasil” ou que “a escravidão por aqui foi suave”. Falácias odiosas que de tão repetidas passam a ser aceitas por parcela da sociedade.

Vale lembrar dos casos envolvendo crianças ofendidas e submetidas a ato indiscutivelmente constrangedores, tal e qual daquela professora que pisoteou a flor amarela levada pela menina com apenas 5 anos de idade sob alegação de que se tratava de “flor do diabo” gerando trauma essa pureza por toda a vida diante da violência e medo provocado; de mesmo modo da invasão por policiais fortemente armados pelo só fato de a crianças retratarem mitologia africana.

A negação da verdade foi o instrumento perfeito para tratar seres humanos como “coisas”, justificando torturas em nome do progresso e até da fé. Pior: a mentira institucionalizada encarregou-se de apagar da memória nacional nomes de altíssima relevância intelectual ou científico e política.

Quantos brasileiros conhecem a genialidade dos irmãos Rebouças na engenharia? A combatividade de Luís Gama e Benedito Galvão na advocacia e na abolição? A trajetória do presidente Nilo Peçanha? A grandeza literária de Machado de Assis, Cruz e Souza? A profundidade geográfica de Milton Santos e o ativismo transformador de Abdias do Nascimento? O sistema preferiu embranquecer ou simplesmente inviabilizar suas contribuições para manter viva a farsa da incapacidade negra apagando essas personalidades.

Verdade e mentira habitam a mesma sociedade, mas a escolha por uma delas é um divisor ético. Antes de propagar uma versão, cabe a cada indivíduo optar pela honestidade dos fatos, ciente de que a história cobrará responsabilidade pelos frutos de suas palavras. A mentira pode ter pernas curtas para quem as profere, mas seus passos falsos deixam marcas profundas no corpo e na alma de toda a nação.

EGINALDO HONORIO é advogado, comendador e atual presidente da Comissão da Igualdade Racial OAB/Jundiaí