O poeta foi grande, dos maiores do século passado. E desapareceu cercado de mistérios há 90 anos, em agosto de 1936. Federico Garcia Lorca é o nome do brabo. Nascido em Granada, na região espanhola da Andaluzia, em 1898, Lorca foi poeta e dramaturgo. Sua obra ganhou reconhecimento em vida e permanece como uma das maiores da literatura de língua espanhola. Quando foi preso e fuzilado por tropas franquistas, durante a Guerra Civil, era um escritor conhecido do público. Tanto por suas peças teatrais (“Yerma”, “Bodas de sangue”, “A casa de Bernarda Alba”), quanto pelos poemas (seu livro “O romanceiro cigano”, de 1928, fora muito bem recebido por público e crítica). Foi também um produtor cultural. Fundou com amigos a companhia teatral “A Barraca”, que percorreu o interior da Espanha levando peças clássicas de Miguel de Cervantes, Calderón de La Barca e Lope de Veja em montagens populares. Mas recuemos no tempo. Nascido numa família abastada, Federico estudou piano por muitos anos. Na juventude, ingressou na Universidade de Granada, onde cursou Direito e depois Letras e Filosofia. Partiu para a capital, Madri, na década de 1920, e enturmou-se com grandes artistas do período, como o cineasta Luís Buñuel e o pintor Salvador Dalí. Garcia Lorca fundiu cultura popular e vanguardismo em seus textos. Entre 1929 e 1930, foi bolsista na Universidade de Colúmbia, em Nova York.
Influenciou escritores mundo afora. O brasileiro Vinícius de Moraes foi um desses artistas curtidores da obra lorquiana. Na década de 1940, quando servia como diplomata em Los Angeles, nos Estados Unidos, Vinícius escreveu “A morte na madrugada”, longo poema que celebra o autor espanhol. E que fala de seu fuzilamento durante a Guerra Civil. Escreve Vinícius: “Uma certa madrugada/Eu por um caminho andava (...)/Era uma terra estrangeira/Que me recordava algo/ Com sua argila cor de sangue/E seu ar desesperado (...). De repente reconheço:/Eram campos de Granada/Estava em terras de Espanha/Em sua terra ensanguentada”. Vinícius refere-se à madrugada em que Lorca foi preso em casa de amigos, em Granada, e encaminhado para a cidade de Viznar, para um posto policial. Levado por soldados por estrada de terra, foi fuzilado sem julgamento e seu corpo jogado em vala comum. Ainda hoje não se sabe onde foi enterrado o poeta. Continua Vinícius: “Súbito um raio de sol/Ao moço ilumina a face/E eu à boca levo as mãos/Para evitar que gritasse./Era ele, era Federico/O poeta meu muito amado/(...) Assim vi a Federico/Entre dois canos de arma/A fitar-me estranhamente/Como querendo falar-me/(...) Como quem me diz: a morte/ É sempre desagradável/Mas antes morrer ciente/ Do que viver enganado/ Atiraram-lhe na cara/Os vendilhões de sua pátria/Em seus olhos andaluzes/ Em sua boca de palavras (...)/ Nos olhos que tinha abertos/Numa infinita mirada/Em meio a flores de sangue/ A expressão se conservava/Como que a segredar-me: -- A morte/É simples, de madrugada...”.
Fernando Bandini é professor de literatura