16 de agosto de 2026
OPINIÃO

Verci e o tratamento do câncer infantil


| Tempo de leitura: 3 min

Vou terminar minha tríade aqui, falando de pessoas maravilhosas que construíram um legado de solidariedade em nossa Jundiaí, mas posso garantir que poderia colher mais de uma centena de depoimentos. Comecei com D. Valderez Merluzzi, na semana passada do legado de Cris Castilho e essa semana quero falar de D. Verci Bútalo.

Essa hoje senhora teve - como eu - um filho com câncer na mais tenra idade, saindo da adolescência. Naquela Jundiaí de então, o atendimento era feito em outras cidades e as famílias encontravam dificuldades enormes para se trasladarem, conseguirem sobreviver e dar conta da vida enquanto seus filhos estavam em tratamento. O câncer em jovens já é por si só uma tragédia. Quando pensamos nos meses e anos dedicados ao doloroso tratamento, sabemos que há uma desestrutura familiar porque alguém há de se dedicar unicamente a este serzinho. 

Essa senhora, Verci, se apiedou do que viu, há 31 anos.  Enxergando muito além de sua própria dor, começou distribuindo cestas básicas para as famílias dos pacientes. Pouco a pouco, foi estruturando o atendimento das crianças aqui até ver seu sonho consolidado - um hospital especializado no tratamento oncológico a crianças.

Hoje, o hospital não atende exclusivamente ao câncer. O Grendacc oferece pelo SUS diversas especialidades pediátricas para pacientes de 0 a 19 anos, incluindo oncologia, hematologia, cardiologia, neurologia, nefrologia, pneumologia e cirurgias.

Uma luta árdua foi travada nestas três décadas para manter o Grendacc ativo. A sociedade - e até mesmo os políticos - entenderam que o hospital não podia fechar. E não pode mesmo. Foi uma grande dificuldade conseguirmos ter uma UTI ali - especializada em atendimento ao câncer infantil. Antes, elas tinham de enfrentar a morosidade e a falta de médicos especializados na rede pública.    

Eu fui convidada muitas vezes por Verci para ser voluntária ali. Não consegui. Não lido bem com jovens doentes, ajudei como pude sempre nas campanhas. Mas nunca me esqueço de uma criança que acompanhei mais de perto. Era a primeira transfusão dele. Todos muito esperançosos pela sua recuperação. Ao chegar no hospital, vi que ele estava muito amuadinho, mas quando a nutricionista chegou com um Toddynho, o sorriso abriu-se! Tomou o Toddynho, que não havia em sua casa, e saiu para brincar no parquinho. Ele acabou falecendo meses depois. Mas nunca mais esqueci da presença do Toddynho na vida dele e de tantas outras crianças. Tão pouco pode fazer tanta diferença! 

O câncer me ensinou a ser humilde diante da vida. D. Verci e família que a jornada pode ser ampla, quando enxergamos o outro. Acompanhei durante anos a luta árdua para se conseguir os medicamentos mais caros aos pacientes. A conta do câncer é de milhões de reais. E o Grendacc não mede esforços para conseguir o melhor tratamento a seus pacientes, nesta conta que não fecha. D. Verci, hoje, não atua mais diretamente na entidade, mas seu legado está lá. 

Mais uma mulher batalhadora de nossa Jundiaí. A elas, tiro meu chapéu, minha alma e as reverencio sempre!

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ