13 de agosto de 2026
OPINIÃO

Conversas vazias


| Tempo de leitura: 3 min

A moça sempre nos diz que gosta de conversar. Sente muita falta de conversas. Rareiam porém essas oportunidades. Não basta quem se interessa por ela e atende algumas de suas necessidades de locomoção por carro, como para fazer exames e compras no mercado e na farmácia.

O cigarro no vai e volta, mais volta do que vai. Os dias em descompasso e o aguardente de outrora danificaram parte de sua saúde. Como faz falta uma respiração sem obstáculos e as batidas de coração em sintonia. O cansaço é muito por causa do fôlego curto.

Já me contou tantas histórias! Gosto demais de ouvi-la. Aos 12 anos, começou a fugir de casa. Junto às decepções e palmadas, acrescentava a vontade de descobrir o mundo e assistir aos shows de seus artistas preferidos da década de 70. Pegava estrada até de caminhão. Encontravam-na, levava uma surra e já se preparava para a próxima viagem. São lembranças inúmeras.

Chegou a ser detida, em uma das cidades, no abrigo para menores. Não se importava. Era de medo reduzido.

Gosta de canções românticas e, às vezes, cantarola para mim. Temos pouca diferença de idade, portanto muitas de suas músicas me trazem saudade.

Já mocinha, não faltava aos bailes de sua predileção e dançava a noite toda. Requisitadíssima. Conhece todos os sambas, dança qualquer ritmo e seus quitutes são uma delícia. Seus bordados encantam os olhos. Artesanato caprichoso, que refletem a sua alma.

Seu lamento, porém, está na falta de conversa. Sou do tempo e ela também em que se colocava a cadeira na calçada, depois do jantar, e se falava sobre assuntos diversos. Na atualidade, as pessoas, com exceções, estão trancadas em casa, diante da televisão e acompanhando, paralelamente, o celular. Não se costuma ir na casa vizinha  para pedir emprestado uma xícara de açúcar, dois ovos…

Diante dessa maneira de ser, desse silêncio forçado, há muita gente com tristeza embutida e que possui incontáveis coisas para partilhar e contar… Gente como ela, gente de acréscimo.

Há uma música de Paulo Miklos, ex-Titãs, que diz assim: “Uma conversa/ É o que eu preciso/ Sentar com você/ Dizer o que eu sinto./ Às vezes a vida fica pesada demais/ Pra gente carregar sozinho/ Dividir com alguém/ Pode ser um alívio./ Você sabe ouvir/ E isso é precioso/ Saber ouvir/ Escutar o outro/ Você parou pra ouvir/ O que eu digo/ Conversar com alguém/ É encontrar abrigo/ A solidão tomando conta/ Já não encontra/ Ninguém no caminho/ Às vezes na vida de quem tem tudo/ Tudo que falta é um amigo/ Confiar em alguém/ Pode ser tão difícil”.

Há poucos dias, ela contou que, na necessidade de dialogar, conversa com a IA. Que triste!

Lembrei-me do Evangelho (Mt 14, 22-33) da liturgia do domingo passado, em que Pedro pede para andar sobre as águas, Jesus não o impede e ele começa a afundar. De imediato pede que o Senhor o salve, e Ele o socorre. Como disse o Padre Márcio Felipe de Souza Alves, Reitor e Pároco do Santuário Santa Rita de Cássia, em sua homilia, “Se sentimos as tempestades e estamos na barca de Cristo, não vamos afundar. Sempre sentiremos as mãos poderosas e chagadas de Jesus nos conduzindo”.

Que ela consiga substituir a IA por conversas com Deus.

 

*Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista