03 de setembro de 2026
OPINIÃO

O voto que se pode cobrar


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Gravei há poucos dias um vídeo para o JJ, respondendo a uma pergunta sobre a importância de votar em candidatos locais para deputado, e a conversa ficou ecoando em mim depois que a câmera desligou. Percebi que tinha mais a dizer do que cabia naquele instante, e resolvi trazer o assunto para esta coluna.

De todos os votos que depositamos na urna, o de deputado costuma ser o mais distraído. Escolhemos presidente com meses de conversa na mesa do almoço, discutimos governador com os amigos, e quando chega a vez do número mais comprido da tela muita gente decide ali mesmo, no impulso de um nome que passou pelo celular na véspera. Sai da cabine sem saber direito em quem votou, e depois se vê diante da pergunta mais simples da democracia, que é saber quem nos representa, e não sabe responder.

Tenho pensado que o melhor caminho é olhar para perto. Candidatos locais, gente que vive na mesma cidade, que atravessa os mesmos buracos na rua e espera na mesma fila do posto de saúde, carregam uma vantagem que nenhum marketing fabrica: sabem do que estão falando. Conhecem o nome do bairro que precisa de creche e a história da estrada que nunca foi asfaltada. E existe algo ainda mais concreto nessa proximidade, porque quem é daqui pode ser encontrado aqui, no supermercado, na missa, na formatura da escola. A representação deixa de ser abstração e vira vizinhança.

Também acho legítimo que alguém vote pensando na própria categoria de trabalho. O professor que apoia quem entende de educação, o produtor rural que escolhe quem conhece o campo, o profissional da saúde que confia em quem já viveu o hospital por dentro. O Parlamento existe justamente para que os diversos mundos que formam uma sociedade tenham voz na hora de decidir, e quem nunca pisou numa sala de aula dificilmente legislará bem sobre ela.

O alerta que me parece mais urgente diz respeito ao barulho. A política aprendeu a se confundir com espetáculo, e cresceu uma safra de candidaturas construídas inteiramente sobre a capacidade de gerar comoção nas redes. A experiência recente nos ensinou uma regra quase infalível, e ela diz que quanto mais estrondo alguém produz na internet, menos costuma produzir de trabalho real onde o trabalho acontece. O grito ocupa o lugar do projeto, a indignação diária ocupa o lugar da comissão, e ao fim do mandato há milhões de visualizações e quase nenhuma linha aprovada. O critério para escolher quem legisla precisa ser bem diferente do critério para escolher quem entretém.

Chego, então, ao ponto que mais me importa. Saber exatamente em quem votamos é o que nos devolve o direito de cobrar. Um voto dado no susto é um voto sem fatura, e ninguém consegue exigir contas de um número que já esqueceu. Um voto consciente cria vínculo, e vínculo cria dever. Quem sabe o nome do seu deputado pode acompanhar o que ele vota, escrever para o gabinete, perguntar em público, elogiar quando merece e apertar com firmeza quando falta. Cobrança pesada, e ao mesmo tempo cobrança de gente séria, feita com bom senso, com fatos na mão e com o respeito que hoje anda tão raro na vida pública.

O voto não é o fim da nossa parte na democracia. É o começo dela. Depositar o voto é assinar um contrato, e contrato bom é aquele que a gente lê antes e fiscaliza depois.

Samuel Vidilli é cientista social