Na semana passada, fui visitar a Casa da Fonte, ONG do Jd. Novo Horizonte, que atende 200 crianças e 87 adultos em situação de vulnerabilidade. Comigo levei minha amiga jornalista Rebeca Mansfield, jundiaiense, radicada em Londres há 20 anos e também amiga Maria Cristina Castilho de Andrade, a mulher que eu brinco ter a chave da porta do céu.
Maria Cristina é uma católica de verdade, devota dos desvalidos. Desde que a conheço, ela leva dignidade a detentos, prostitutas e crianças vulneráveis. Tenho a honra de ser de sua estima.
Estive com ela na inauguração da Casa da Fonte, há 21 anos. Uma portinha de garagem, no meio de um bar, onde ela pintava com as crianças e oferecia livros para adultos e para a meninada. Ela não queria invadir o território. Ela queria conhecer a gente, entender do que precisavam, para ir consolidando pouco a pouco o atendimento.
O Jd. Novo Horizonte, na época, não era esse que vocês conhecem atualmente. Havia chão de terra, enchentes, falta de esgoto e um preconceito enorme de quem era do bairro. Se não me engano não havia nem mesmo as casas do CDHU. Quando estas chegaram, levou mais de uma década para escolas, UBSs e o Pronto Atendimento serem implantados para esta população.
O bairro mudou e muito. Mas a vulnerabilidade social é contínua. Dados do Atlas da Mobilidade Social, divulgados em 31 de julho de 2026, mostram que quase não há ascensão social no nosso país. 48% dos brasileiros nascidos entre os 25% mais pobres continuam nesse mesmo grupo na vida adulta. Somente 8,32% dos filhos das famílias mais pobres conseguem alcançar o grupo dos 25% mais ricos. Apenas 1,28% chega aos 10% mais ricos do país. Cristina já está cuidando da segunda geração do bairro.
Fiquei encantada com o que vi. As crianças ficam no contraturno recebendo aulas de reforço de Matemática, Português (com muita poesia), capoeira, música, judô, artesanato e arte. Os adultos têm cursos rápidos profissionalizantes, como barbeiro, cabeleireiro, manicure e agora oficina de conserto de bicicletas.
Mateus, 5 anos, foi meu concierge durante a visita. De pezinhos no chão, chão de terra, com horta e bosque, nos levou a cada sala de aula e explicou o que ocorria ali. Criança é transparente. Dá para ver no rosto delas a alegria e o contentamento. Na sala de aula de poesia, elas nem paravam a atividade para conversar conosco. É aula concorrida.
Perguntei a Cristina como as crianças lidam com o tráfico, já que ali é de comércio corriqueiro. Cris me disse que as crianças atendidas pela ONG apontam que sabem escolher outro caminho. Que a vida, para elas, tem futuro.
Tantas meninas e meninos formados por ali agora são cidadãos maravilhosos. Gente que dança no Bolshoi, gente que consegue ir para a faculdade, trabalhadoras e trabalhadores dessa nossa Jundiaí.
A vulnerabilidade tem jeito. Basta querer. Obrigada Cristina por encher meu coração de esperança!
Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ