26 de agosto de 2026
OPINIÃO

Vocação


| Tempo de leitura: 3 min

Se há uma palavra que sempre soou aos meus ouvidos como doçura, coragem e luz é a palavra vocação, abordada na perspectiva da missão. E há aqueles que traduzem em versos e cores a vocação artística e o rumo que os guia.

Na Igreja, começamos esta semana celebrando a vocação do Padre e a próxima com a do Pai. Creio que por primeiro soou-me a palavra pai e com meiguice. O nosso era da doçura e do aconchego até mesmo no olhar.   Transformava nossos pequenos feitos em vitórias e era de consolo nas derrotas. Tenho uma saudade dele tão grande, que embora tenha partido em 1987, parece-me que foi ontem. Mesmo com suas limitações - não há alguém isento delas -, doou-se por inteiro em cada atitude, gesto, palavra...

Em paralelo, repercutiu também com mimo, ainda nos meus primeiros anos, a palavra padre. Sempre um sacerdote fez parte de nossa família, visto como homem sagrado, parte da formação e indicador de que fomos feitos para a Eternidade; que além das limitações humanas existe o Céu. Posso dizer que fui formada e criada por nossa mãe, pai e um sacerdote do bem. Lamentável que alguns se desviem de seu propósito em cuidar de seus filhos biológicos e outros das ovelhas que o Senhor lhes confiou. Foi o próprio Jesus quem disse que a messe é grande, mas são poucos os operários. Operários que colocam seus desejos pessoais acima do chamado de Deus, desobedientes ao seu Bispo, envoltos em discursos que enganam o povo, são como os pais que não assumem como deveriam os seus rebentos. São padres e pais fracos de ânimo, frouxos. Maus exemplos por sua covardia na renúncia ao seu eu. Diante de Deus não levam vantagem.

Em relação aos padres, dentre outras canções, duas me emocionam. Uma a do padre Antonio Maria: “Sofre o coração que chega o zóio (sic) mareja(sic)/ Que peleja da missão/ Sobre a estola desse homem que clareia/ Nos caminhos a visão/ A pedra fundamental da nossa Igreja/ O sangue, o vinho, a carne e o pão/ Pelas mãos de quem trabalha nessa mesa/ A transubstanciação./ Eu tenho certeza de que não há riqueza maior/ que o amor que há em toda Missa/ Em cada clamor que esse homem santo/ leva Deus no canto/ que transforma o coração. (...) Como o pai que dá a vida por seus filhos/ O padre doa o seu viver/ Farol que indica rumo no mundo perdido/ Quem abre os olhos pode ver”. E do Padre Zezinho: “Se ouvires a voz do vento/ Chamando sem cessar/ Se ouvires a voz do tempo/ Mandando esperar/ A decisão é tua. (...) Se ouvires a voz de Deus/ Chamando sem cessar/ Se ouvires a voz do mundo/ Querendo te enganar/ A decisão é tua. (...) E o mundo passando fome/ Passando fome de Deus...” Enganos malignos vêm de deixar de proclamar a Palavra por escolher a plateia do mundo.

Marca-me também a música “Cidadão” de Zé Ramalho, que retrata o operário que veio da seca e trabalhou no prédio, onde depois não pode entrar, mas há uma estrofe de alento: “Tá vendo aquela igreja, moço? / Onde o padre diz amém/ Pus o sino e o badalo/ Enchi minha mão de calo/ Lá eu trabalhei também. / Lá que foi que valeu a pena/ Tem quermesse, tem novena/ E o Padre me deixa entrar...”

E para os pais são tantas as músicas, mas para o nosso deixo esta de Nelson Gonçalves: “Naquela mesa tá faltando ele/ E a saudade dele tá doendo em mim”.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista