01 de agosto de 2026
GESTÃO PÚBLICA

Saúde expõe pressão política sobre municípios

Por Diná de Melo | Jornal de Jundiaí
| Tempo de leitura: 4 min
Secretário de Saúde, Dr. Flávio Amorim, participa do Podcast JJ

O secretário de Saúde de Jundiaí, Flávio Amorim, utilizou o Podcast JJ, em entrevista concedida à editora-chefe Ariadne Gattolini, para fazer um diagnóstico da saúde pública que vai além dos desafios da gestão municipal. Ao abordar o financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS), ele afirmou que os municípios passaram a assumir responsabilidades cada vez maiores ao longo dos anos e defendeu maior participação financeira do Estado e da União no custeio da saúde pública. Também afirmou que o Governo do Estado precisa rever a destinação dos leitos do Hospital Regional para ampliar o atendimento à Região Metropolitana de Jundiaí.

Segundo o secretário, atualmente cerca de 70% dos recursos aplicados na saúde em Jundiaí são provenientes do orçamento municipal, percentual muito superior ao mínimo constitucional exigido dos municípios. Para Amorim, esse cenário é resultado de um processo histórico no qual as prefeituras passaram a assumir serviços que originalmente deveriam ser compartilhados entre os três entes públicos. "A conta vai ficando cada vez mais para o município", afirmou. Segundo ele, a população cobra diretamente a administração municipal, que acaba ampliando a oferta de serviços para atender às necessidades da população, mesmo quando determinadas responsabilidades deveriam contar com maior participação estadual e federal.

Hospital Regional no centro da discussão

Um dos principais temas da entrevista foi a situação do Hospital Regional de Jundiaí. Amorim explicou que a unidade estadual atende pacientes de 42 municípios pertencentes ao Departamento Regional de Saúde (DRS-7), enquanto a Região Metropolitana de Jundiaí reúne sete cidades.

De acordo com o secretário, quando o Hospital Regional iniciou suas atividades havia uma divisão de funções entre as unidades hospitalares da cidade. O Hospital São Vicente concentrava os procedimentos de maior complexidade e o Regional absorvia atendimentos de média complexidade. Com o passar dos anos, porém, o aumento da população, o envelhecimento dos pacientes e a maior permanência nas internações alteraram completamente esse cenário. "Nós temos procurado discutir a repactuação e fazer uma ação perante o Estado para que seja revisto esse fluxo, para que esses leitos sejam redirecionados para a nossa região", afirmou.

Enquanto novos hospitais estaduais previstos para Bragança Paulista e Campinas não entram em funcionamento, Amorim defende que o Governo do Estado reavalie a utilização do Hospital Regional para ampliar a oferta de leitos destinados à Região Metropolitana de Jundiaí. Segundo ele, essa é uma das medidas necessárias para reduzir a pressão sobre o Hospital São Vicente, que enfrenta períodos frequentes de superlotação.

Filas, especialistas e atenção básica

Outro desafio apontado pelo secretário é a dificuldade para ampliar a oferta de consultas especializadas e exames. Colonoscopia, tomografia, ortopedia, oftalmologia e endocrinologia estão entre as maiores demandas da rede municipal. Segundo Amorim, o problema não é exclusivo de Jundiaí, mas ocorre em todo o país em razão do envelhecimento da população e do aumento da procura pelos serviços especializados.

Para reduzir as filas, a Prefeitura tem recorrido a mutirões, contratação de especialistas por meio de consórcios regionais e adesão aos programas do Ministério da Saúde voltados à ampliação da oferta de exames e consultas. Também estão em andamento ações para ampliar vagas de diálise e negociações para aumentar o número de leitos no Hospital São Vicente.

Na atenção básica, o secretário afirmou que a estratégia da administração municipal é fortalecer as Unidades Básicas de Saúde e ampliar gradativamente a Estratégia Saúde da Família. O objetivo é tornar a atenção primária mais resolutiva, evitando que casos de menor complexidade sobrecarreguem os prontos-atendimentos e reduzindo internações decorrentes de doenças que poderiam ser acompanhadas nas UBSs.

Farmácia de Alto Custo

A entrevista também abordou a Farmácia de Alto Custo. Amorim explicou que as filas registradas nas últimas semanas ocorreram durante a implantação de um novo modelo de atendimento, no qual o município passou a executar procedimentos anteriormente realizados pelo Estado. Segundo ele, a mudança aumentou o tempo de atendimento e o número diário de usuários, exigindo adaptações na estrutura e nos processos. Entre as alternativas em estudo estão a ampliação dos guichês de atendimento e novas formas de distribuição dos medicamentos.

Ao longo da entrevista, o secretário reforçou que a Prefeitura continuará investindo na ampliação da rede municipal, mas defendeu maior participação financeira do Estado e da União para acompanhar o crescimento da demanda por serviços de saúde. Na avaliação de Amorim, a reorganização da oferta regional de leitos e o fortalecimento do financiamento da saúde pública são medidas essenciais para garantir a sustentabilidade do sistema e melhorar o atendimento à população.