16 de agosto de 2026
OPINIÃO

O acelerador de D. Valderez


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Na última semana, Jundiaí inaugurou um novo acelerador linear, moderno, potente, que vai melhorar o tratamento de radioterapia em nossa cidade, assim como acelerar o tratamento dos pacientes de câncer no nosso querido Hospital São Vicente de Paulo. Uma bênção. Entretanto, o que me chamou a atenção foi a disputa de quem ia ser o “dono” político do equipamento de milhões de dólares. O equipamento foi comprado com verba do SUS (Sistema Único de Saúde) pelo governo federal. E quem o inaugurou foi o governo municipal. Ou seja, o acelerador linear foi comprado com o dinheiro do povo. Para mim, pouco importa quem seria o dono político do feito, desde que os pacientes jundiaienses tenham seu câncer tratado em até 60 dias, como preconizado por lei, o que não vem ocorrendo.

Mas a história que eu quero contar é muito particular, foi tema de várias reportagens deste mesmo JJ, mas que ficou perdida em arquivos antigos, onde ainda não existia a rede virtual. Eu a conheci como repórter - D. Valderez Merluzi - professora aposentada, combativa membro do Comus (Conselho Municipal de Saúde) e uma mulher que batalhou, incansavelmente, para que Jundiaí tivesse seu primeiro acelerador linear, na década de 2000.

O método que ela agia era muito peculiar. Ela escrevia centenas de cartinhas à mão, com sua letra linda de professora, e enviava aos políticos. Se eles tivessem em palanques políticos, lá estava D. Valderez a empunhar um envelope com a cartinha goela abaixo do governador, dos deputados e de ministros.

Ela não media esforços para estar frente a frente na presença dos mandatários. Falava em um tom muito peculiar sobre a necessidade dos pacientes de câncer de terem um tratamento adequado em nossa cidade, exigia mesmo uma solução.

E ela conhecia bem esta história porque ela mesma tinha sido tratada de câncer na mama no próprio Hospital São Vicente. E percebeu como Jundiaí estava atrasada tecnologicamente. Curada do câncer de mama, colocou-se à luta para o bem de todos.

Eu a conheci já conselheira de saúde, altiva, forte. Me convidou para tomar chá em seu apartamento, em uma mesa posta, finamente escolhida com xícaras de porcelana. Viramos amigas, de nos falar diariamente.  E foi assim, até seus últimos dias, quando o câncer, agora no cérebro, levou minha amiga embora. Sem dar trabalho, sem se queixar, sem incomodar ninguém.

Mas o fato é que D. Valderez conseguiu o primeiro acelerador linear para Jundiaí, nesta luta incansável de uma mulher brilhante e dedicada ao próximo. Não me lembro se ela conseguiu estar na inauguração, mas na época a sala foi batizada com seu nome, nesta luta árdua de uma jundiaiense nata. Nunca a ouvi se vangloriar do feito. Ela lutava mesmo para diminuir as outras mazelas da população jundiaiense na área da saúde, que iam e vão até hoje, muito além do tratamento oncológico.

D. Valderez não tinha partido. O partido dela era a população. Não era política, nem estava aí para agradar ninguém. Ela só desejava atendimento digno à população. 
Sinto falta dela e de tantas outras pessoas que o câncer me tomou. Mas, quando forem falar de acelerador linear, alto lá. Nesta cidade aqui, só avançamos por conta das pessoas como D. Valderez.   

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ