11 de agosto de 2026
OPINIÃO

O que esperar do amanhã?


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A ciência nos garantiu longevidade. Inegável que hoje se vive mais. Esse prolongamento existencial não é apenas uma benção. Pode vir como espécie de maldição. Por quê?

Ao contrário da sabedoria oriental, em que a velhice é ouvida, respeitada como acervo de experiência, no Brasil que até ontem era jovem, o velho é um estorvo. Vide a multiplicação de Casas de Repouso, muitas das quais apenas disfarçam o antigo “Asilo de Velhos”.

Os achaques, as vulnerabilidades, a rotina aos consultórios e laboratórios, a frequência à farmácia, tudo isso passa a integrar nossa vida prolongada. Como diz o médico geriatra Milton Crenitte, “envelhecer em uma sociedade que teme a velhice significa, muitas vezes, perder o direito de decidir sobre a própria vida, antes mesmo de perder capacidades”.

Filhos há, que no intuito de ajudar, passam a controlar os pais. As recomendações práticas do geriatra são: 1. Ouça. Pergunte e escute verdadeiramente o que o idoso considera importante, quais riscos ele aceita correr e do que ele não quer abrir mão em sua rotina. 2. Idoso não é criança. Ele tem de tomar decisões. 3. Busque o equilíbrio. Há diferença entre proteger e controlar. Ajudar é importante, mas o estado de vigilância constante pode desgastar relações e deixar a pessoa se sentindo incapaz, mesmo que esteja lúcida.

Para piorar o quadro, há o medo da demência. O pavor do Alzheimer, que apanha tantas mentes brilhantes, em qualquer idade. Recente pesquisa da Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp, constatou que quatro em cada cinco idosos brasileiros com quadro de demência não sabem que vivem nessa condição.

O alto índice de subdiagnóstico já havia sido estimado no Relatório Nacional sobre a Demência, no Ministério da Saúde, em 2024. Estima-se que cerca de 2,5 milhões de pessoas vivam com demência no Brasil. Desses, mais de 2 milhões não receberam o diagnóstico.

A cultura brasileira ainda acredita que o declínio cognitivo é uma consequência inevitável e esperada do envelhecimento. É preciso fortalecer as estratégias de detecção precoce da demência na atenção primária à saúde, ampliar a conscientização de todos e, principalmente, dos profissionais de saúde sobre a condição dos idosos.

Algumas atividades podem ser protetivas em relação à demência senil. Por exemplo, cozinhar em casa pelo menos uma vez por semana. É um dos fatores que consegue reduzir em até 30% os riscos. Isso constou de um estudo publicado num periódico científico. E o benefício é ainda mais expressivo entre cozinheiros iniciantes ou com poucas habilidades. Para estes, houve redução de até 70% no risco de desenvolver a doença.

Aquilo que parece apenas uma tendência, ou algo que surge em conversas de leigos na medicina, parece reforçar a importância dos hobbies e do aprendizado contínuo como aliados na prevenção da demência.

Cozinhar não é algo trivial. É um processo que envolve planejamento de cardápios, seleção e compra de ingredientes, gestão de orçamento, atenção aos prazos de validade, técnicas motoras e o momento de servir. Todas essas tarefas criam uma série de desafios para o cérebro.

Então, filhinhos preocupados com seus papais e mamães idosos, pensem na possibilidade de almoços com eles. Pois além de cozinhar, o ato envolve atividade física: ir ao supermercado, carregar compras, permanecer em pé durante o preparo, lavar a louça. Fontes de movimento diário, essenciais para os idosos.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo