12 de agosto de 2026
OPINIÃO

A febre do momento: Farmar Aura


| Tempo de leitura: 2 min

Caro leitor, se você tem convivido com adolescentes, ou simplesmente passa mais de dez minutos nas redes sociais, é muito provável que já tenha ouvido a expressão "farmar aura". Vinda da cultura dos videogames, a gíria migrou para a vida real e se tornou uma verdadeira obsessão comportamental. Ter "aura" significa emanar carisma, confiança e magnetismo social sem transparecer esforço. Já o ato de "farmar" (do inglês farm, acumular recursos com repetição) refere-se a estratégias diárias para construir essa presença inabalável.

Mas o que leva um conceito aparentemente fútil da internet a dominar a linguagem urbana? Para a Neuropsicanálise, campo que une o rigor da neurociência às profundezas do inconsciente, essa "febre" é tudo menos banal. Trata-se de um retrato sintomático da nossa psique moderna em busca de validação e controle.

Caro leitor, no nível neurobiológico, "farmar aura" aciona perfeitamente o nosso sistema de recompensa dopaminérgico. A dopamina não é o hormônio do prazer em si, mas da antecipação do prazer. Quando alguém adota uma postura estilosa, responde com ironia refinada ou performa um ato de "autocuidado estético", o cérebro antecipa a recompensa social: a aprovação, os likes, os olhares de admiração.

Cada interação bem-sucedida libera uma descarga dopaminérgica, criando um ciclo de reforço comportamental. O cérebro aprende que "farmar aura" reduz a dor da rejeição social, funcionando como um amortecedor contra a ansiedade.

Na visão psicanalítica, o que está em jogo é a busca desenfreada pelo Eu Ideal. Sigmund Freud e Jacques Lacan já nos alertavam que a psique humana é estruturada pela "falta". Sentimo-nos inerentemente incompletos e vulneráveis. O "farmar aura" surge como uma fantasia de invulnerabilidade: se eu acumular "aura" suficiente, serei inabalável, desejado e protegido das falhas humanas.
A aura, portanto, torna-se o objeto do desejo contemporâneo. No entanto, há um paradoxo: a neuropsicanálise nos lembra que a satisfação plena é uma ilusão. Assim que "farmamos" um momento de admiração, a dopamina cai e a sensação de insuficiência retorna. O "farmador de aura" vive na esteira rolante de uma performance sem fim.
    
Por que essa febre explodiu agora? Porque vivemos na era da superexposição. Em um mundo onde o olhar do outro é constante e mediado por telas, a imagem que projetamos substituiu a nossa essência singular. "Farmar aura" é uma tentativa desesperada da psique de exercer controle sobre como somos percebidos pelo mundo.

Não há problema em desejar presença ou carisma. O risco surge quando a busca pela "aura" anestesia a nossa capacidade de lidar com a vulnerabilidade real, com o fracasso e com as imperfeições que nos tornam humanos.

A verdadeira "aura" — se é que ela existe — não pode ser acumulada como moedas virtuais. Ela nasce justamente quando aceitamos nossas faltas e paramos de performar. Afinal, tentar desesperadamente parecendo que não se está tentando é a neurose mais cansativa do nosso tempo. Pense nisso!

Micéia Izidoro é  psicopedagoga Clínica e Institucional, Neuropsicopedagoga Clínica e pós-graduada em ABA