28 de agosto de 2026
OPINIÃO

A era da empatia programada


| Tempo de leitura: 2 min

Se o seu parceiro só lhe traz dor de cabeça e você dispõe de aproximadamente R$ 130 mil, já pode encomendar um namorado(a). Não de carne e osso, mas um robô humanoide com inteligência artificial, desenvolvido na China para oferecer companhia emocional.

Essa é uma das transformações tecnológicas mais profundas desde a popularização da internet. O impacto não está apenas no avanço da robótica, mas na convergência entre inteligência artificial, computação afetiva, sensores, visão computacional e aprendizado contínuo. O resultado é uma máquina que, além de executar tarefas, cria a impressão de compreender e responder emocionalmente às pessoas. 

Os novos robôs aprendem hábitos, rotina, preferências, modo de falar, estado emocional e lembranças compartilhadas. Conversam por horas, adaptam sua personalidade, demonstram empatia simulada e constroem uma memória de longo prazo sobre o usuário. O resultado é uma interação suficientemente convincente para produzir uma sensação de intimidade. Porém, o fabricante ressalta que eles foram projetados para companhia emocional, assistência e interação social, sem finalidade sexual. 

Mais do que lançar um produto, a indústria inaugura um mercado baseado na terceirização das relações afetivas. Hoje assinamos plataformas de filmes e músicas, amanhã poderemos contratar planos de atualização para um companheiro artificial, com novos recursos, personalidade personalizada e serviços adicionais. 

A ficção começa a dar lugar à realidade. No filme, Blade Runner, lançado em 1982, a pergunta era se os androides poderiam se tornar humanos. Quatro décadas depois, a questão parece outra. Será que continuaremos cultivando relações humanas quando as máquinas forem emocionalmente mais previsíveis, pacientes e confortáveis?

Os benefícios são inegáveis. Robôs podem fazer companhia a idosos, lembram a hora de tomar medicamentos, os estimulam a fazer exercícios, monitoram emergências e ampliam a autonomia de pessoas com deficiência. Também podem oferecer uma escuta inicial a quem enfrenta solidão, sem substituir profissionais da saúde mental. 

Mas toda inovação cobra seu preço. Um robô é programado para agradar. Não se irrita, não critica, não abandona. Quanto mais perfeita for essa convivência, maior poderá ser o risco de dependência emocional, isolamento social e enfraquecimento da capacidade de lidar com as imperfeições das relações humanas. São elas que nos ensinam a negociar diferenças, desenvolver empatia genuína, ter resiliência e amadurecer.

Talvez esse seja o maior paradoxo desta revolução tecnológica. O verdadeiro desafio não será criar máquinas capazes de simular afeto, mas garantir que os seres humanos não desaprendam a construir vínculos reais. Se a inteligência artificial conseguir imitar a empatia com perfeição, a pergunta deixará de ser o que as máquinas são capazes de fazer, mas sim, o quanto da nossa própria humanidade estaremos dispostos a entregar a elas. 

Rosângela Portela é jornalista, consultora e mentora em comunicação