Dia 26 de julho a igreja católica comemorou o dia de Sant´Ana, avó de Jesus. Olhando o calendário, lembrei-me que há alguns anos visitei uma exposição na Pinacoteca do Estado, composta por imagens de Sant’Ana do acervo particular de uma colecionadora mineira.
A mostra reunia imagens de diferentes períodos, confeccionados em diversos materiais, tamanhos e estilos. Trazia também gravações com depoimentos da colecionadora, compartilhando curiosidades e histórias do período em que reuniu aquelas peças.
Uma dessas histórias, guardo na memória, pela emoção que me causou.
Ela contava que sua coleção não começou por devoção religiosa, mas por motivação estética e cultural. O acervo foi se constituindo aos poucos. Com o tempo, foi adquirindo peças e recebendo presentes de amigos. Mas havia uma peça em especial – uma imagem barroca de Sant’Ana – que conhecia apenas por catálogos, que a encantava, mas nunca conseguira encontrar.
Na época, várias fazendas de Minas com dificuldades financeiras, estavam vendendo objetos que possuíam em suas casas. Pensou em encontrar algo para sua coleção. Decidiu visitá-las.
Em uma delas encontrou um casal de idosos colocando à venda o que possuíam na casa. Ao entrar no quarto do casal, reparou num pequeno nicho, a imagem de Sant’Ana que tanto procurava.
Emocionada, fez os acertos para a compra, mas percebeu um certo desconforto na senhora.
Encontrou-a sentada à beira da cama e perguntou se havia algum problema com a venda da imagem.
- Não! Ficamos gratos pela sua compra.
Mas a resposta não a convenceu. Havia tristeza ali. Ela insistiu na pergunta.
A senhora olhou para ela e disse:
- Essa imagem está com minha família há quatro gerações. Foi me dada pela minha mãe que recebeu da mãe dela, que por sua vez recebeu da sua mãe. Ela está comigo neste quarto, desde que minha mãe morreu. Confortou-me nos meus cinco partos, que graças à sua proteção, correram bem. Fico um pouco triste em vê-la partir.
Naquele instante, a alegria da descoberta do que tanto procurou, se desfez. O desejo antigo de possuir aquela peça deu lugar a uma dúvida profunda: Qual era o lugar daquela imagem? Na estante do seu acervo particular ou no nicho daquele quarto onde sempre esteve?
Saiu por um instante e concluiu a compra como combinado.
Com a imagem nas mãos, voltou para o quarto e a entregou à senhora, dizendo emocionada:
- Quero que fique com ela, para que permaneça onde é o seu lugar. É o meu presente
Foi embora, levando apenas a experiência daquela tarde. Ao voltar à sua casa, percebeu que sua coleção já não era mais a mesma. Passou a olhá-la com outros olhos. Não era mais apenas um acervo de arte e cultura, mas a guardiã de histórias, de afetos e de vidas inteiras.
Francisco Carbonari foi secretário da Educação em Jundiaí