16 de agosto de 2026
OPINIÃO

Os (re) cantos de Jundiaí


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Nesta vida atribulada que a gente leva, pouco tempo sobra para passear pelas ruas de nossa terra querida. Normalmente, fazemos os mesmos caminhos, as mesmas rotas e mal olhamos para a vida cotidiana ao nosso redor.

E tem mais: nessa bolha diária, a gente faz os mesmos trajetos. No meu caso, Região da Ponte São João-Centro e às vezes um shopping, mas é muito às vezes mesmo. De final de semana me esbaldo. Vou caminhar no Terra Nova, na Santa Clara, no Jd. Botânico e até mesmo na Abadia, em Louveira. Ouço o canto dos pássaros, as fontes de águas passando e me reconecto com a força da natureza. Jundiaí está cheia destes encantos naturais.

Mas, por conta das obras na rodovia João Cereser, outro dia tivemos que nos adentrar pela Vila Hortolândia. Trabalhamos ali uns cinco, seis anos, onde ficava nosso parque gráfico. E qual não foi meu espanto pela mudança do bairro. Inúmeros comércios, novos prédios, instalações. É uma nova formatação de bairro surgindo.

Pouca gente se lembra do que era a Vila Hortolândia no final da década de 70 e início dos 80. Eu sempre passava por ali, porque meus pais, espíritas, iam levar cestas básicas a uma favela às margens da antiga rodovia. E eu digo favela mesmo porque eram casinhas de madeira, mal cobertas por telhas galvanizadas, em que se chovia dentro, quase sempre. Mas eu me recordo, tristemente, de um incêndio e de famílias que tinham de ser acolhidas imediatamente. Naquela época, não havia política pública estabelecida. Os pobres eram atendidos pela caridade, quando isso existia. Sem critérios técnicos, sem dados, de muita empatia, mas pouco resultado.

Caminhamos muito. As comunidades hoje não são como antigamente, embora isso não seja motivo para que não nos envergonhemos da falta de acesso à moradia digna e barata. Assim como da educação deficitária, aqui em nossa cidade prioritariamente quando termina o ciclo municipal e se cai no limbo das estaduais, onde faltam segurança, alimentação e professores. 

ntretanto, essa crônica de domingo foi para observar como Jundiaí vem se modificando pelas beiradas. Caminho três vezes por semana e, apesar da decadência, há poucas mudanças na região Central. Porém, é nos bairros que enxergo um respiro novo. Ali na Região Sul, também, tantos comércios novos surgindo. Na Região Oeste, nem vou falar porque sou daquelas que chegava quando o Jd. Novo Horizonte era enlameado pelas chuvas, onde ainda não havia chegado o asfalto e tantas catástrofes aconteciam. Quando passo por lá, vejo como o tempo mudou tudo, tanto progresso, mas tantos investimentos e arborização ainda necessários.

Jundiaí parece ser uma cidade estável, mas não o é. Na força da periferia, pelas beiradas, estamos construindo outro município. Ali, na região da Terra Nova, me sinto definitivamente entregue à cidade rural e ao divino.  Mas sei que só vamos sobreviver se preservamos nossas matas, nossa cultura, nossa gente e garantir que a cidade cresça para quem mais a merece. 

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ