Com o término da Copa do Mundo, além da chateação por não ver a seleção canarinha na final, o brasileiro tem muito mais motivos para se sentir frustrado. Diante de uma equipe totalmente distante da realidade do país, os torcedores ainda tiveram que assistir a atletas de outras equipes demonstrarem o real significado de representar uma nação.
Tratando-se do Brasil, a Copa do Mundo é uma ocasião especial, capaz de mobilizar grande parte da população. Mesmo quem não é aficionado por futebol costuma se render ao espetáculo. Quando a seleção brasileira entra em campo, familiares, amigos e até colegas de trabalho se reúnem para torcer pelo país.
Isso se justifica por diversos motivos e um deles é psicologicamente conhecido como sentimento de pertencimento. O ser humano é social e necessita de interações para se moldar e se desenvolver. O futebol faz parte da cultura e da tradição brasileiras e, para muitos, é uma forma de se conectar e se sentir vencedor.
Em um país de poucas oportunidades, ver a seleção brasileira ganhar representa um raro momento de conquista, em que o torcedor também se sente, de certa forma, vencedor. Esse é exatamente o ponto que o time da CBF talvez não tenha compreendido.
A campanha, extremamente aquém do que se espera do país do futebol, revela muito mais do que uma eliminação precoce. A apatia e a falta de comprometimento demonstradas pela equipe evidenciam que muitos atletas parecem não compreender a importância e o privilégio que é, ou deveria ser, vestir a amarelinha.
Houve jogador que reclamou do fato de a Copa do Mundo ser disputada durante o período de férias. Além disso, brincadeiras eram frequentes durante os treinamentos. Como se não bastasse, a equipe sequer se dispôs a retornar ao país após a eliminação para enfrentar as merecidas críticas. Se tivesse conquistado o título, certamente todos estariam em território nacional para celebrar a vitória.
Em contrapartida, o brasileiro teve de assistir a uma seleção argentina aguerrida, que lutou até o último segundo; a uma nação norueguesa tomada pelo orgulho após derrotar a maior campeã da história; e à seleção de Cabo Verde, sensação da Copa, que deu uma verdadeira lição sobre o significado de defender o próprio país.
Tudo isso demonstra que a equipe verde e amarela está totalmente desconectada do seu povo. Talvez a expatriação cada vez mais precoce para a Europa faça com que os jogadores se esqueçam de que estão vivendo o sonho de todo menino brasileiro. Parecem não compreender que carregam a esperança de centenas de milhões de pessoas que não possuem as regalias de que desfrutam os boleiros.
Defender o Brasil é muito mais do que disputar uma partida; é um chamado que exige compromisso, respeito e entrega. A seleção perdeu a essência que fez da camisa verde e amarela um símbolo de orgulho nacional. Além do mais, passado não ganha jogos. Enquanto a equipe canarinha insiste em viver dos títulos conquistados há décadas, outras seleções escrevem os novos capítulos da história. Se a CBF não romper com seu modus operandi, marcado por escândalos e interesses particulares, o Brasil continuará sem uma seleção que represente, de fato, o seu povo.
Daniel Orsini Martinelli, advogado, presidente da OAB Jundiaí e membro da Academia Jundiaiense de Letras Jurídicas