16 de agosto de 2026
OPINIÃO

Love is the answer


| Tempo de leitura: 2 min

Começo este artigo citando o psicanalista Jorge Forbes. “Há um sentimento de dívida no ar. Um sentimento de não fiz o que deveria ter feito. Não consegui trabalhar como antes. Não consegui brincar, conversar com meu filho. Não consegui abraçar quem  amo. De repente, o mundo ficou muito grande, ilimitado. E o sujeito se apequenou. Tudo lhe ficou distante. O que ontem lhe satisfazia, hoje o atormenta.

Acontece que o mundo mudou radicalmente. Viemos de 2.800 anos de uma constituição de nossa identidade, em uma arquitetura vertical, padronizada, hierárquica, garantida; fomos para uma sociedade horizontal, múltipla, flexível, criativa, surpreendente. Antes conhecíamos os códigos que nos avaliavam. Sabíamos como ser chefe, funcionário, casado, professor, adolescente. Sabíamos até como brigar, pedir desculpas, fazer as pazes.

Agora não sabemos mais nada. Estamos desesperadamente procurando novos limites. Pensa-se com insistência que ontem era melhor. Não era não. Além do mais, o presente é inexorável. Melhor legitimá-lo, captá-lo em sua nova forma, perceber a imensa chance da humanidade em nova clave. É o mundo mix. Nossa identidade não se acalmará no lago pacífico de Narciso.”  

Tive a sorte de tomar um chá com Forbes, há 15 anos. Um chá rápido onde falamos sobre música eletrônica, modernidades, relações afetivas. Mas este seu texto acima casou com o que venho refletindo há uns dias: “love is the answer”.

Não adianta a gente espernear, gritar, tentar ofender uns aos outros, impor regras militares e antiquadas. Nossos jovens estão se libertando de convicções pré-programadas. Eles vão ter a sorte de fazer o que quiserem, mas, ao contrário de minha geração, agora eles são validados por serem inovadores e criativos.

São referendados por não quererem ter mais filhos, ou ter muitos. De escolher viver longe das grandes cidades, em home offices saudáveis e mais sustentáveis. Escolhem viver melhor, não correr atrás de um dinheiro que nunca virá.

E aí enxergo neles algo tão melhor que o passado. Enxergo relações sendo construídas com transparência e afeto. Não me importa o modelo. Cada modelo só pode servir para quem o usa. E vejam, hoje, a nova geração sabe nomear o que quer, em termos afetivos. Na nossa era uma bagunça de divórcios, traições mútuas, casamentos sucessivos e um desrespeito sem fim. Hoje eles decidem como estar ou não em uma relação, sem a cobrança e a culpa.

Sou nada saudosista. A democracia anda lado a lado com a liberdade. De construir uma cidadania coletiva, não mais no laissez-faire do neoliberalismo, que nos colocou onde estamos hoje, em completa desigualdade social, sem tempo para viver, em infindáveis culpas.

Love is the answer. A empatia, a compaixão, a solidariedade. E esses sentimentos a nova geração sabe bem melhor do que nós. O futuro está no coletivo.  

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ