10 de agosto de 2026
OPINIÃO

O que falta ao Brasil?


| Tempo de leitura: 3 min

Todos somos pródigos em críticas e avaros na participação real na gestão da coisa pública. Nosso mote é culpar o sistema e os governantes. Mas eles governam com que legitimidade? Foram escolhidos pelos cidadãos. Uma das vantagens do Estado de Direito de índole democrática instaurado em 5.10.1988 é a possibilidade de eleger “novos” representantes. Coloquei “novos” entre aspas, porque a continuidade é uma das características a serem revisitadas. É preciso renovar. Há mais de duzentos milhões de brasileiros. Dentre eles, quantos não poderiam trazer novidade à política partidária, tão cansada de mesmice?

Trago a lição de alguém que conhece o Brasil e que batalha por ele desde a sua adolescência. Não é um aventureiro, mas um scholar, um pensador, alguém que ousou colocar em prática o seu aprendizado árduo e exitoso.

Para ele, “o futuro vai depender de educação, tecnologia e inovação. O Brasil tem hoje uma situação privilegiada, porque a China voltou a ter um papel central no mundo e ela precisa de comida e matéria-prima. E o Brasil tem espaço para continuar a plantar e tem boa mineração. Mas isso tem um preço: nossa indústria começa a dar sinais preocupantes, o número de empregos aumentou, mas os empregos são de baixa qualificação. País desenvolvido é um país de emprego bom”.

Ele falou isso quando tinha oitenta anos e hoje tem noventa e quatro. Daqui a alguns dias fará noventa e cinco. Estou falando de Fernando Henrique Cardoso, o único intelectual de verdade que assumiu a presidência desta República tão complexa quanto bizarra.

Já àquela altura, ele refletia: “Tenho dito que estamos um tanto sem estratégia. Não estou falando só do governo. Tenho horror a essa ideia de que falta um projeto nacional. Isso é uma visão totalitária, a famosa utopia totalitária. Não se trata disso. Numa sociedade democrática é preciso que haja uma convergência de objetivos. Não é alguém que, com uma alavanca de governo ou partido faz”.

Ou seja: é urgente implementar a Democracia Participativa, pois a Representativa está fazendo água. Quem é que se sente efetivamente representado no Parlamento “para lamentar” que instauramos aqui?

Ano de eleição é ano de eleger os melhores. E os melhores são os que estão ao nosso alcance. Dentro do nosso ângulo visual. Alguém com quem se possa conversar, olho no olho, cobrar ações reais em favor de nossa comunidade, não os forasteiros que vêm recolher votos e depois desaparecem, até à próxima colheita.

O desafio que FHC enxergava há catorze anos continua presente e mais intenso: “o de criarmos uma sociedade mais decente, onde as pessoas se sintam mais seguras, vejam futuro para seus filhos. Ainda é um desafio chegar a um Brasil onde todos se sintam partícipes. Nos slogans, isso já existe, na prática ainda não”.

Também continuamos sem “uma visão compartilhada de futuro. Grandes decisões são tomadas sem o país saber. Falta a sociedade se engajar nessas questões. Se não há debate e a sociedade não confia nas instituições, como pode haver uma convergência de todos? Não é possível. Fica cada um por si e Deus por todos. E sabe quem acaba mandando? O mercado. Quem mais comanda hoje é o mercado, não o Estado ou a sociedade, com seus valores e suas políticas. Numa sociedade democrática, não pode ser o mercado quem comanda. Tem que ser a sociedade”.

Para piorar, o mercado hoje é a imposição das big techs que nos manipulam e comandam o mundo com os algoritmos e a IA. Estamos atentos a esse mergulho no tecnofeudalismo?

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo