06 de agosto de 2026
OPINIÃO

Talvez na diferença haja conveniência


| Tempo de leitura: 3 min

Desde a mais velha infância de que me lembro, sempre estudei de uma maneira estranha e desorganizada. No mínimo três livros abertos na mesa, umas duas folhas de sulfite com anotações e agenda velha como rascunho para os tópicos que têm que ser “visitados” no processo de aprendizado. Meus cadernos, então?  Os mais queridos eram cheios de anotações dentro e fora das linhas, escritas em sentidos aleatórios e em cores diferentes. Desenhava “balões” como os das histórias em quadrinhos com montes de setas e fluxogramas em que nem mesmo eu sabia o fim exato.

O que eu fazia funcionava na escola, porque sempre mantive boas notas, mas também é verdade me desgastava um tanto com este método. A tecnologia e a maturidade de hoje não me mudaram muito, já que no meu notebook tem sempre de seis a oito “abas” abertas sobre assuntos que estão relacionados entre si (ou, ao menos, assim eu acredito)

Ainda que este “caos acadêmico” possa abrir portas para a minha criatividade, confesso que é bem fácil (e perigoso) meu cérebro se perder no meio de tantas possibilidades. Por isso, olho com especial compaixão para pessoas com sistemas nervosos que têm ainda mais propensão de se perderem em um labirinto de informações intermináveis que hoje, é frequente de se encontrar.

No caso, a neurodivergência conhecida como Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é o modelo onde esta “confusão” com todos os estímulos do mundo acontece e pode ser bem angustiante. Normalmente seus portadores são “classificados” como pessoas sem determinação, sem foco ou objetivo, com pouca força de vontade e mesmo como inconvenientes, já que o aspecto impulsivo do transtorno dificulta a suavidade social que tanto ajuda para construir relacionamentos saudáveis.

Diante de tanto estorvo e inconveniência eu entendo, então, a tendência de julgar estes sistemas nervosos “diferentes” como sendo “doentes”, indicando amplamente o uso de remédios específicos (seu consumo aumentou 775% na última década!) e a busca por uma “cura”.

Só que pela minha experiência médica o caminho da “cura” começa no conhecimento das demandas a que estes sistemas foram submetidos, já que associo os sintomas muito mais à uma tentativa de adaptação do que uma falha, um engano da natureza. Como vejo isso na prática?

Em um mundo de redes sociais, alta produtividade e expectativas de desempenho estratosféricas, acompanhar o fluxo de acontecimentos é um desafio frenético e fadado ao fracasso: nunca reagiremos tão rápido quanto a velocidade de atualização que a tecnologia proporciona. Neste mundo de “milhares de novidades por minuto” nada é prioridade, tudo é ruído de informação.

O sistema nervoso divergente procura, então, proteger-se da sobrecarga de estímulos, mesmo que isso o torne um tanto alienado do seu meio. O devaneio e a falta de foco poupa o núcleo do pensamento e memória de um ritmo nada saudável de ser correspondido mesmo para aqueles que, de início, o conseguem.

Afinal, o filósofo chinês Chuang-Tzu, no século IV a.E.C, resumiu bem o valor da individualidade advinda da divergência com o ditado “árvore que nasce torta vive muito tempo, enquanto a árvore reta vira tábua”.

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina chinesa, osteopatia e inteligência sistêmica