06 de agosto de 2026
OPINIÃO

Fixando raízes


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“Será que irão respeitá-lo por lá?” – eu perguntei para minha esposa enquanto dirigia meu carro de volta para Jundiaí, na semana que antecedia o carnaval deste ano. Ela me respondeu o óbvio, mas ao menos deixou-me mais tranquilo em saber que a minha preocupação era compartilhada.

- Não tem como saber. Só o tempo dirá, agora – ela me disse, profetizando.

Na realidade nós dois estávamos com a cabeça cheia de pensamentos já que tínhamos acabado de deixar nosso filho de 17 anos morando sozinho na megalópole de São Paulo. Estava tudo dentro do “planejado”, já que ele estava iniciando o curso superior que tinha escolhido e na faculdade que havia almejado, mas era a sua primeira experiência de “estar por conta própria” e igualmente para nós dois.

Acredito que todo pai ao ver o filho seguir o caminho para “o mundo” (que é natural) sente um pouco de receio como eu naquele momento. Ainda que seja algo que foi claramente incentivado por nós por muitos anos (o educamos para isso) parece que a realidade não seja tão tranquila de aceitar, quando se concretiza.

Encontrei um alívio na lembrança de uma história de uma professora que eu e minha esposa tivemos em comum em uma das nossas formações profissionais. Ela passou por situação semelhante com o filho mais velho, que iria treinar em uma concentração de futebol, em outra cidade, também muito jovem.

Conta ela que, ao partir, o filho deveria levar no coração “três certezas” que o ajudariam a enfrentar os desafios que viriam de uma forma digna e fortalecida.

- A primeira certeza é lembrar-se de onde veio, saber das próprias origens, aquilo que nunca muda, independentemente de onde o caminho o levar. A segunda certeza é de ser respeitado por aqueles que estão no lugar para onde se vai e, por fim, a terceira certeza de que sempre haveria um lugar para voltar, se necessário – disse eu, me esforçando com as palavras para organizar a lembrança da nossa professora.

Estas “certezas” refletem as necessidades que temos, em nível biológico, de nos sentirmos pertencentes e “enraizados” em algum lugar. Mais do que uma referência física, trata-se de um recurso importante para organizar nosso lugar no mundo de um sentido metafórico e influencia a nossa visão de todas as coisas que nos “rodeiam”.

Caso a nossa percepção não consiga se sentir confortável com estas questões (ou seja, não as têm como “certezas”) podemos perder lentamente o nosso eixo e as dúvidas começam a aparecer na nossa vida como trincas que aparecem em uma parede que antes era sólida e segura. Até mesmo sintomas físicos podem ser creditados às incertezas de “estar no lugar certo”, em particular as inflamações nos pés, como a fascite plantar.

O interessante é que esse “desequilíbrio” não é um defeito ou um erro do processo de mudança, já que na espécie humana, bípede desde os primórdios, desequilíbrio é sinal da demanda de mudança e movimento, devendo ser interpretado mais como uma necessidade de ajuste transmitido pelo nosso corpo do que uma sentença de fracasso dos nossos projetos.

- Ele vai se sentir bem lá, é um bom lugar – conclui falando em voz alta, como se estivesse fechando o discurso das minhas lembranças para a minha esposa, mas na realidade esperava que eu mesmo, em minha mente e corpo, ouvisse minhas palavras e me acalmasse.

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura, com formação em medicina chinesa, osteopatia e inteligência sistêmica