27 de julho de 2026
COPA E COMPORTAMENTO

Copa acende alerta para vício em apostas

Por Vitor Silva |
| Tempo de leitura: 5 min
Divulgação
Carlos Eduardo Speglic, de 46 anos, é psicólogo especialista em vícios

A cada Copa do Mundo, o futebol ganha ainda mais espaço no cotidiano dos torcedores. Com ele, crescem também as apostas esportivas, impulsionadas pela expectativa em torno dos jogos, pela identificação emocional com a seleção e pela presença cada vez maior de plataformas do setor em transmissões, redes sociais e campanhas publicitárias. Para o psicólogo Carlos Eduardo Speglic, de 46 anos, especialista em vícios, esse cenário amplia os riscos de um comportamento que pode deixar de ser recreativo e evoluir para a ludopatia, transtorno caracterizado pela dependência em jogos.

Segundo o especialista, a Copa reúne elementos que favorecem a entrada de novos apostadores, inclusive pessoas que nunca tiveram o hábito de jogar. O primeiro deles é a força do futebol como fenômeno popular e cultural, capaz de mobilizar públicos de diferentes idades e perfis. O segundo é o avanço da publicidade ligada às casas de apostas, que nos últimos anos passou a ocupar espaço central no noticiário esportivo, em patrocínios e em conteúdos com influenciadores e atletas.

Na avaliação de Speglic, a forma como essas campanhas são construídas contribui para tornar a prática mais sedutora. “A propaganda transmite a sensação de que a possibilidade de ganho é bastante provável”, afirma. Em um período de grande mobilização emocional como a Copa, essa mensagem tende a encontrar terreno fértil em pessoas que acompanham futebol, se sentem confiantes em seus palpites e enxergam na aposta uma extensão da experiência de torcer.

O psicólogo explica que, do ponto de vista emocional, grandes eventos esportivos favorecem uma combinação perigosa entre euforia, ansiedade e expectativa de recompensa. Ele destaca que muitos apostadores buscam no jogo uma forma de aliviar o estresse do dia a dia ou de potencializar a adrenalina já gerada pela competição. Nesses casos, a aposta deixa de ser apenas um palpite e passa a ocupar uma função de compensação emocional.

Outro fator importante, segundo Speglic, é a falsa sensação de controle. Em competições como a Copa do Mundo, o torcedor acompanha notícias, analisa escalações, retrospectos e desempenho recente das seleções. Isso pode reforçar a impressão de que o conhecimento sobre futebol aumenta as chances de vitória. Para o especialista, porém, essa lógica é enganosa. “Mesmo sendo um entendedor de um determinado esporte, ainda assim é um jogo de azar”, afirma.

Ele lembra que as próprias casas de apostas trabalham com modelos estatísticos, probabilidades e cotações elaboradas justamente para garantir lucro. Na prática, conhecer futebol pode até reduzir perdas pontuais em curto prazo, mas não elimina o risco nem altera a natureza da aposta. “A casa sempre ganha algum valor, independentemente do resultado”, ressalta o psicólogo.

Speglic afirma que existe diferença entre apostar por diversão e desenvolver um comportamento de risco, mas faz um alerta: a repetição frequente pode encurtar essa distância. Ele compara o processo à relação de algumas pessoas com substâncias psicoativas. Nem todo indivíduo que aposta se torna dependente, mas o potencial de repetição é alto porque o jogo ativa mecanismos de prazer e recompensa no cérebro.

Segundo o especialista, estudos em neurobiologia apontam que o ato de apostar está diretamente relacionado à liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer e bem-estar. Essa descarga química, sobretudo quando ocorre de forma intensa e imediata, aumenta a tendência de repetir o comportamento. “Basta a continuidade do ato de jogar para que haja uma evolução do estágio recreativo para o abusivo e, depois, para a dependência”, explica.

Os sinais de alerta, segundo Speglic, costumam aparecer quando a aposta passa a ocupar um espaço maior na rotina e deixa de ser esporádica. Entre os principais indícios, ele cita a perda de controle, a necessidade de apostar valores maiores para sentir a mesma excitação, as mentiras para esconder o hábito ou os prejuízos financeiros, as tentativas frustradas de parar e os impactos no trabalho, nos estudos e nos relacionamentos.

Outro comportamento recorrente é a tentativa de “correr atrás do prejuízo”. Quando perde dinheiro, o apostador tende a fazer novas apostas para recuperar o valor anterior, o que aprofunda o problema. “Na prática, geralmente ela perde ainda mais e entra em um ciclo emocional negativo”, afirma Speglic. Esse movimento, segundo ele, costuma ser acompanhado por raiva, tristeza, arrependimento, impulsividade e aumento da ansiedade.

A presença de celebridades, atletas e influenciadores em campanhas publicitárias também merece atenção. Para o psicólogo, essas figuras ajudam a normalizar o hábito e a reduzir a percepção de risco. Como são pessoas vistas como bem-sucedidas e admiradas pelo público, acabam transmitindo a ideia de que apostar é algo leve, divertido e socialmente aceito. “As pessoas podem se sentir muito próximas dos influenciadores, e isso gera confiança”, observa.

Em um contexto como o da Copa, esse estímulo se soma à emoção típica de um torneio disputado a cada quatro anos. Para Speglic, a euforia é a emoção mais presente no momento em que muitas pessoas decidem apostar. O problema é que, quando o resultado não vem, frustração e ansiedade caminham juntas e podem afetar diretamente a saúde mental. Em quadros mais graves, a perda progressiva de qualidade de vida pode abrir caminho para depressão e outros sofrimentos psíquicos.

O especialista afirma que a ludopatia é um problema real e crescente no país. Ele cita estimativas de que mais de 2 milhões de brasileiros sofram com dependência em jogos. Em sua experiência clínica, ao longo de 20 anos de atuação, já acompanhou tanto casos de recuperação quanto desfechos graves. O tratamento, segundo ele, pode envolver psicoterapia, acompanhamento médico e grupos de mútua ajuda, como os Jogadores Anônimos.

Para Speglic, o principal cuidado durante a Copa é reconhecer que a aposta não deve ser tratada como forma de renda, compensação emocional ou resposta ao impulso do momento. Em um torneio cercado por paixão, publicidade e senso de urgência, o risco está justamente em confundir entretenimento com controle. Quando o jogo deixa de ser pontual, passa a gerar sofrimento e compromete a vida cotidiana, o alerta já está aceso.