27 de julho de 2026
OPINIÃO

Abundam falsos profetas


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Tempos de eleição propiciam exercícios instigantes. Proliferam os forasteiros que vêm à colheita de votos locais. Nunca voltam. Se eleitos, atendem às suas prioridades, que nunca são as nossas.

O eleitor é um incauto, um ingênuo e vira instrumento útil para quem sabe “vender o seu peixe”. Em tempos de predomínio algorítmico, a IA – Inteligência Artificial é ferramenta de grande captura da vontade eleitoral.

Os mais espertos se valem do arsenal de recursos persuasivos das redes. É o que Hugo Hoffmanstahl dizia na Viena do século XX sobre o crescente poder dos demagogos em tempos de crise: “Política é magia. Aquele que sabe como conjurar as forças das profundezas, este será seguido”.

Tal citação é de Miguel Darcy de Oliveira, no prefácio de “Relembrando o que escrevi”, publicação de textos de FHC, que afirma nunca ter dito “esqueçam o que eu escrevi!”.

Se há antídoto contra tal situação que é a do Brasil de hoje, diz Miguel Darcy, “é o fortalecimento de uma democracia viva, sustentada por cidadãos capazes de pensar pela própria cabeça”.

E invoca outra lição imperecível, de Primo Levi, no livro “Se este é um homem”, contundente testemunho de sua experiência em Auschwitz, onde o nazismo exterminou mais de seis milhões de judeus: “Visto que é difícil diferenciar entre os verdadeiros e os falsos profetas, mais vale desconfiar de todos os profetas; mais vale renunciar às verdades reveladas, mesmo se elas nos exaltam por sua simplicidade e esplendor. Mais vale se contentar com outras verdades, mais modestas e menos entusiasmantes, aquelas que se conquistam cada dia, pouco a pouco, com o estudo, a discussão e o discernimento”.

Diante do descalabro atual, da proximidade das eleições, o mais prudente é votar nos candidatos que nós conhecemos. Os que moram em nossa cidade. Aqueles com os quais podemos nos encontrar e encarar olho no olho. Por que votar em quem só se vê pela TV ou pelas redes sociais?

Não se pense que haja solução fácil para o Brasil. Mas é preciso não perder a capacidade de sonhar e de ir em busca das utopias. Como dizia FHC, o único intelectual a chegar à presidência, “É preciso correr o risco. É nessa altura que aparece o problema do realismo utópico: é preciso ter alguma ideia a respeito do tipo de sociedade que se quer, do tipo de controle que se deve ter”.

O Brasil da política partidária é o reino da fantasia brasiliense e da ficção que custa caro ao povo. Temos a tradição da retórica, nesta “República da Hermenêutica”, em que a lei só adquire concreção na dicção dos seus intérpretes. O mesmo texto conduz a mil tonalidades possíveis, intensificando a dolorosa insegurança jurídica.

É que somos peritos em substituir a vida pelas ideias, o fluxo real por um clichê bem-intencionado. “Existe no Brasil a ideia de que a diversidade não é legítima, tanto que se vive buscando o consenso, em nome do interesse da nação. Ora, quem busca consenso é regime autoritário. Democracia não. Democracia é o reconhecimento da legitimidade do conflito, a busca da negociação, é a procura de um acordo, sempre provisório, em função da correlação de forças”, diz Fernando Henrique.

Na fase histórica em que o Parlamento sequestra o Executivo, é importante escolher deputados e senadores que cuidem de nossa cidade. E ficar em cima deles: controle, cobrança, fiscalização. Valorizemos nosso voto! Jundiaí tem um colégio eleitoral capaz de eleger vários representantes. Que sejam nossos e não falsos profetas!

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo