26 de julho de 2026
OPINIÃO

Por que sentimos mais dor no frio?


| Tempo de leitura: 3 min

Com a chegada do inverno, é comum ouvir alguém reclamar de dor. Mas será que o frio realmente agrava essas dores? Nos dias frios, o organismo adota estratégias para preservar a temperatura corporal.

Uma das principais é a vasoconstrição, processo em que os vasos sanguíneos se estreitam para reduzir a perda de calor. Embora seja um mecanismo natural de proteção, ele diminui a circulação de sangue nos músculos, tendões e articulações. Como consequência, esses tecidos recebem menos oxigênio e nutrientes, tornando-se mais rígidos e menos preparados para o movimento.

Essa menor irrigação ajuda a explicar por que tantas pessoas acordam com a sensação de corpo “travado” durante o inverno. Músculos apresentam menor elasticidade, tendões ficam menos complacentes e as articulações parecem mais endurecidas, especialmente após longos períodos de repouso. Não é que as estruturas tenham se desgastado de um dia para o outro, mas elas necessitam de mais tempo e movimento para recuperar sua mobilidade habitual.

Outro fator importante está no sistema nervoso. Espalhados por todo o corpo existem pequenos sensores chamados nociceptores, presentes na pele, músculos, tendões, ligamentos, fáscias e articulações. Eles funcionam como um sistema de vigilância, detectando possíveis ameaças aos tecidos e enviando essas informações ao cérebro, que decide se é necessário causar dor como forma de proteção ou não. No frio, esse sistema pode ficar mais sensível. Estímulos que normalmente seriam bem tolerados passam a ser percebidos de outra forma, fazendo com que uma coluna com algum problema ou um joelho com
 artrose doa mais, mesmo sem existir uma nova lesão.

A dor é o resultado da interpretação que o cérebro faz das informações recebidas
 pelo corpo. Fatores comuns no inverno, como pior qualidade do sono, menor exposição à luz solar, aumento do estresse e redução da atividade física, influenciam diretamente esse processamento. Em outras palavras, o cérebro pode aumentar o “volume” da dor mesmo
 sem que exista um novo dano nos tecidos.

Existe ainda um componente comportamental que contribui para esse ciclo. Quando
 faz frio, naturalmente caminhamos menos, permanecemos mais tempo sentados ou deitados e reduzimos nossa rotina de exercícios. Essa diminuição do movimento reduz a lubrificação das articulações, compromete a circulação sanguínea e diminui a liberação de substâncias
 analgésicas produzidas pelo próprio organismo, como as endorfinas. O resultado costuma ser mais rigidez, mais desconforto e maior percepção de dor.

A boa notícia é que o movimento continua sendo um dos melhores tratamentos naturais
 para esse problema. Caminhadas diárias, exercícios de mobilidade suaves pela manhã, fortalecimento muscular e um aquecimento adequado antes das atividades ajudam a restaurar a circulação, melhorar a elasticidade dos tecidos e reduzir a sensibilidade do sistema
 nervoso. Dormir bem e evitar permanecer muitas horas na mesma posição também fazem grande diferença.

Portanto, sentir mais dor no frio é normal e na maioria das vezes, o corpo apenas
 está respondendo às mudanças de temperatura de forma inteligente e protetora. Entender esse mecanismo é o primeiro passo para abandonar o medo do movimento e adotar estratégias que realmente funcionam.

O inverno pode trazer mais desconforto, mas não precisa significar mais limitações.
 Quanto mais o corpo se movimenta de maneira adequada, mais preparado ele estará para enfrentar qualquer estação do ano. Muita saúde a todos!

Liciana Rossi é especialista em coluna e treinamento corretivo. Pioneira do método ELDOA no Brasil