26 de julho de 2026
OPINIÃO

Dinheiro alheio


| Tempo de leitura: 2 min

“Pecúnia non olet” – dinheiro não tem cheiro. O corrupto abusa do poder, autoridade ou confiança para obter vantagens ilícitas ou ganhos pessoais. Esta prática ilegal, muitas vezes começa por uma pessoa, sem a intenção, mas que depois não perde o vício. Isto me fez lembrar um pequeno fato, contado por um amigo.

A sua vida profissional de fiscal foi cercada de tentações, mas dela saiu ileso, chegando a aposentadoria, com dignidade, marcada por uma honestidade ímpar.

Numa oportunidade, foi chamado pelo seu chefe, para uma missão bastante delicada. Havia fortes suspeitas, que um companheiro do interior, estava “comendo bola”, facilitando, afrouxando, no desempenhar de fiscalização de sua função pública.

De inicio, não quis acreditar, pois conhecia a honestidade e os propósitos de trabalho do seu antigo companheiro. Sem muita convicção da suspeita da alegação, cumpriu a ordem superior. Percebeu, entretanto, com o passar dos dias, depois de algum tempo, que as suspeitas que pesavam, sobre seu companheiro, eram verdadeiras. A amizade antiga lhe permitiu uma conversa íntima com o companheiro de trabalho.

O velho companheiro então começou a desabafar. Tudo havia começado por um caso insignificante. Ao fiscalizar os livros contábeis de uma empresa, pode constatar algumas irregularidades, que direcionavam para a sonegação. Notificado o proprietário, lá compareceu e após os cumprimentos de praxe, deixou sobre a mesa, um pacotinho, embalado por papel de jornal, e saiu rapidamente. Estranho comportamento do fiscalizado. Pegou o pacotinho, abriu-o e para sua surpresa, era um pouco de dinheiro enrolado.

Pensou. Como ser subornado, ainda por dinheiro e por quantia tão irrisória. Onde estaria sua ética e dignidade. Ademais o notificado voltaria prestar esclarecimentos e aí, tomaria as providências cabíveis, em novo caso de desrespeito. Guardou o dinheiro na gaveta da escrivaninha, não lhe pertencia e nem queria tê-lo desta forma. Novos encontros e novos pacotinhos. O notificado estava abusando de sua paciência e de sua honestidade. Na gaveta, já havia vários pacotinhos, intactos, para a devida devolução. Certa vez sua esposa telefonou, precisava pagar a conta de energia elétrica e água. Pegou o talão de cheques na gaveta e viu os malditos pacotinhos de dinheiro.

Novamente pensou. Por que não usar deste dinheiro e repô-lo, quando da devolução. Assim procedeu. Novo telefonema da mulher, as compras no mercado. Desta vez não titubeou, usou novamente o dinheiro do pacotinho. Entretanto, as visitas do notificado foram se rareando e os pacotinhos de dinheiro, por sua vez escasseando. Novos pagamentos e os pacotinhos de dinheiro diminuindo.

Acostumou-se a trabalhar com o dinheiro alheio. Tornara-se hábito. A quantia a ser devolvida a seu verdadeiro dono, já era de um valor, que a restituição lhe doía no bolso. Novas contas teriam que se pagas, com seu próprio dinheiro. Deixou os princípios de lado. Esqueceu a ética profissional e a honestidade. Tomou a iniciativa. Telefonou para o notificado:  “Como é, não vai passar por aqui?”

Guaraci Alvarenga é advogado