24 de julho de 2026
OPINIÃO

Singeleza


| Tempo de leitura: 3 min

De acordo com o “Dicionário Etimológico Nova Fronteira” de Antônio Geraldo da Cunha, singelo: deriva do latim tardio singelus, que é um diminutivo de singulus, significando "único", "individual" ou "solitário". Por extensão, o termo evoluiu para descrever o que é puro, sem artifícios ou complicações. Com este adjetivo qualificamos todas as coisas em que não há mistura nem composição.

Foi da singeleza o acontecimento com a moça. Conheço-a faz duas décadas, entre tropeços e acertos. A vida já lhe bateu muito. Chegou até a dormir em tubulação, quando se encontrava em delírio. A vontade, no entanto, sempre foi de acertar, mas vontade sem valentia. Acredito que a muitas pessoas, por sua história de infância e adolescência, é negada a bravura e conseguir viver negativas não é fácil. Julga-se de imediato, sem puxar os acontecimentos anteriores. Aliás, de Deus é não julgar em situação alguma.

No início do ano, a moça passou por uma dor intensa: a partida da mãe – minha querida - para a Eternidade. Sei de todos eles. Identifico-os pelo chão que lhes deram, que os detentores de lucros impediram que fosse solo sagrado. Em terra profana nasce, em meio as flores, “comigo-ninguém-pode”. Foi compromisso com a mãe que assumiu, nos últimos tempos da doença e diante de seu corpo coberto de flores, de encontrar força e não passar mais por desvios. E tem feito assim. Foi festa quando arrumou emprego na firma de limpeza e, também, por ser designada nas proximidades do cemitério em que se encontra aquela que jamais duvidou de que, um dia, ela se tornaria capaz. No horário do almoço, aproveita para se fortalecer diante do túmulo da mãe, dizendo-lhe de suas dores, mas também de suas vitórias na vassoura e na pá.

Um dia desses, enviou-me uma mensagem, no local de trabalho, conversando com um filhote de maritaca e a mãezinha dele, em um planta com flores amarelas. Sua voz transbordava meiguice, desfeita de tantas dores que o mundo lhe impôs. Singelo, sem artifícios, ternura única. Fez-me um bem imenso. Todas as pessoas carregam um lado que se desfaz dos acúmulos doentios, de hematomas e tristes para ser de asas que por instantes conduzem além do horizonte. Senti-me privilegiada por partilhar comigo.

Lembrei-me de uma frase de Clarice Lispector em “A descoberta do mundo”: “Nas sequências dos agoras é que você existe”. Era o agora dela e o meu. O essencial era isso.

Um pouco depois, a Amanda Tramontina, que integra a equipe da Casa da Fonte, contou-me sobre o menino, pequeno ainda, de uns oito anos, que, ao receber um Bis após a merenda no refeitório, olhou por vários ângulos e em seguida comentou que guardaria para a mãe. Que bonito!  
Vieram-me alguns versos como “Motivo” de Cecília Meireles: “Eu canto porque o instante existe/ e a minha vida está completa. (..._) Se desmorono ou se edifico, / se permaneço ou me desfaço, / Sei que canto. E a canção é tudo...” E também o poema “Voz que se cala” de Florbela Espanca: “Amo as pedras, os astros e o luar/ Que beija as ervas do atalho escuro, / Amo as águas de anil e o doce olhar/ Dos animais, divinamente puro. (...) Amo todos os sonhos que se calam/ De corações que sentem e não falam, / Tudo o que é infinito e pequenino” ...

Amo Deus que coloca encantos tantos em minha vida.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista