22 de julho de 2026
OPINIÃO

A estátua esquecida


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No Largo do Arouche há um busto em bronze, criação de Yolando Malozzi de 1931. Foi inaugurado em 22 de novembro do mesmo ano, para celebrar Luís Gama.

Essa iniciativa do movimento negro resultou na edificação do primeiro monumento público a homenagear um afrodescendente. A contribuição dos voluntários foi recolhida por um veículo de imprensa que liderou o movimento.

Hoje, pouca gente se comove com a discreta reverência a um ser notável, que precisaria ser mais lembrado. Assim como tantos outros que batalharam por causas justas, esse herói parece residir no ostracismo.

Nasceu em Salvador, capital da província da Bahia, em 21 de julho de 1830. Filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina, etnia Nagô, era chamada Luísa Mahin.

Voluntariosa, sempre recusou as águas lustrais e a doutrina cristã. Era de um negro retinto, com bela dentadura de cor da neve. Seu gênio era altivo, insofrido e vingativo.

Comerciava frutas e tinha fama de ser uma quitandeira laboriosa. Em seguida à Revolução do Dr. Sabino – a “Sabinada” – na Bahia, veio para o Rio de Janeiro e nunca mais regressou a Salvador.

O filho procurou-a em 1847, em 1856 e em 1861, na Corte, mas não logrou encontrá-la. Em 1862, veio a saber por uns pretos minas, que a conheciam e lhe informaram de que ela, em companhia de desordeiros, acabara no cárcere.

Nunca mais Luís Gama soube de sua mãe. Desafortunado órfão de mãe viva, para ela compôs versos muito sentidos.

Quando escreveu a Lúcio de Mendonça, em 1880, contando sua autobiografia, Luís Gama evita cuidadosamente de revelar a origem paterna. Não ousou afirmar que o seu genitor era branco, porque isso poderia parecer perigoso em um País em que se dá tanto valor à cor humana. Mas não escondeu que era fidalgo, pertencia a uma das principais famílias da Bahia, de origem portuguesa.

Acrescentava, nobremente, “devo poupar à sua infeliz memória uma injúria dolorosa e o faço ocultando-lhe o nome”. É que o pai de Luís Gama era rico e, de início, foi até extremoso para com o bastardo. Mas estroinas, esbanjou uma boa herança em diversões e jogo. Ficou reduzido à miséria e chegou a vender o filho como escravo, a bordo do navio Saraiva.

Foi nessa situação que Luís Gama veio para o Rio de Janeiro, destinado à casa de um português de nome Vieira, que tinha loja de velas na rua da Candelária, no canto da Rua do Sabão.

Daí foi vendido numa leva de cento e tantos escravos, ao Alferes Antonio Pereira Cardoso, que o levou para São Paulo e o revendeu para outros vários. Era muito hostilizado pelo fato de ser baiano.

Afinal, foi novamente acolhido no lar do Alferes. Exerceu as mais humildes atividades domésticas. Estudou sozinho e se tornou rábula, um letrado em Ciências Jurídicas que não cursou a São Francisco, a primeira escola de direito do Brasil, que no ano que vem completará 200 anos.

Apaixonado pela liberdade, tornou-se campeão da campanha liberal, com sua palavra ágil e perspicaz, conseguiu – também com o uso do seu enorme coração – tirar mais de mil seres humanos do cativeiro.

Jornalista inteligente e arguto, exímio orador, explorou todas as nuances da Lei Eusébio de Queiroz, de 1850 e libertou seus irmãos escravizados. Morreu em 24 de agosto de 1882, seis anos antes da Abolição, da qual é Patrono. Seu féretro foi uma fenomenal demonstração de respeito e carinho por um brasileiro. Não nos esqueçamos dele, nesta era em que faltam verdadeiros heróis.

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo