28 de julho de 2026
OPINIÃO

Jogos Abertos: quando o interior era palco do esporte


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Os 18º Jogos Abertos do Interior de 1953 foram realizados em Jundiaí. Para receber o evento foi construído o Ginásio Municipal de Esportes, o Bolão, que em 1998 recebeu o nome do Dr. Nicolino de Lucca. A obra, inovadora para a época, foi projetada pelo arquiteto e ex-prefeito Vasco Antonio Venchiarutti

Os Jogos Abertos, até o final da década de 1960, tinham um peso diferente do de hoje. Eram encontros de um esporte ainda amador, mas da melhor qualidade. O interior de São Paulo concentrava talentos que hoje seriam improváveis fora dos grandes centros.

Aprendi, quase como quem decora histórias de família, os nomes que brilhavam nas quadras. No basquete, Piracicaba com Wlamir Marques,  rivalizando com São Carlos, com Rosa Branca. Depois Franca, surgindo com força, com Hélio Rubens. No vôlei, Santos, com Pedrão e Paulo Russo. Santo André com Moreno. E Jundiaí, representada por uma equipe memorável, com Máfia, Nelsão, Mário Luiz Borin, Luiz Geraldo — nomes que ainda ecoam na memória de quem viu.

No atletismo – ah que equipe – vieram Nelson Prudêncio, Jurandir Ienne, Atilio Alegre, José Carlos Jacques — atletas que alimentavam as seleções paulista e brasileira, mas que eram nossos.

Com o avanço da profissionalização, esse cenário começou a mudar. O esporte passou a se estruturar sob grandes patrocínios, concentrando equipes e talentos nas capitais. Aos poucos, os Jogos Abertos do Interior perderam protagonismo. Já não eram o mesmo acontecimento. Continuaram existindo, mas perderam o brilho.

Mas, voltando a 1953, eu queria destacar algo inusitado que aconteceu. É uma cena que não vi, mas que quase posso ouvir.

O maestro Luiz Biela de Souza, professor de música do Instituto de Educação, e que por onde passava criava um orfeão, fez para os Jogos, mais do que isso.

Criou uma série de músicas dedicadas ao evento, à cidade, às disputas. Levava ao Bolão o orfeão da escola normal, que ocupava as arquibancadas. Cantavam durante os jogos, músicas de incentivo a Jundiaí, provocações aos adversários, comentários bem-humorados sobre a arbitragem, elogios aos vencedores.

Recentemente, ao vasculhar antigos arquivos, encontrei o folheto de 1953 com aquelas letras compostas pelo professor Biela. E, para minha surpresa, ainda consigo cantá-las. Não sei quando aprendi – eu tinha 2 anos – , mas guardei-as como se fossem lembranças minhas, talvez porque foram repetidas em minha casa, nas aulas de música do colégio ou nos ensaios nas arquibancadas de competições posteriores.

Embora o tempo siga seu curso, há coisas que resistem. Às vezes basta um papel antigo e, de repente, tudo reaparece e entendemos que algumas vitórias não estão nas medalhas, mas naquilo que depois de tantos anos permanece na nossa memória.

Francisco Carbonari é ex secretário de Educação