17 de julho de 2026
OPINIÃO

O quimono cor-de-rosa


| Tempo de leitura: 3 min

Eu imagino que o começo não tenha sido fácil para ela. Kyra Gracie é bisneta e sobrinha-bisneta dos dois brasileiros que adaptaram um estilo de jiu-jitsu japonês para a própria realidade durante a década de 20 e, desde pequena, sentiu o peso de carregar este sobrenome.

A família era enorme; seu avô, um dos 21 filhos de Carlos Gracie, teve 12 filhos e entre eles, a sua mãe. Todos alinhados com o propósito que virou o legado da família, a criação de um sistema de luta capaz de formar “guerreiros invencíveis”, testados em competições com o nome sugestivo de “vale-tudo”.

Em entrevista afirmou que, desde muito cedo, viu e sentiu a competitividade imperar em tudo que se fazia: “Em casa a gente se resolvia no tatame” – disse ela – “o primeiro a escolher o videogame era quem ganhava no tatame… até a comida”.

Ela percebeu também que esta competição diferenciava bem homens de mulheres: “Os meninos tinham mais acesso, tinham prioridade. Isso vai criando uma autossabotagem, uma sensação de não merecimento. Você começa a sonhar pequeno”.

Esse é o ponto de inflexão que quero enfatizar.

O evento traumático mais pernicioso, aquele com potencial para o maior estrago, não é o abrupto e violento, ao contrário, é silencioso e modesto, capaz de passar despercebido enquanto sustenta um negativismo normalizado dentro da família e na sociedade. Ocorre gota-a-gota, todos os dias, disfarçado em comentários como quando um menino faz algo vergonhoso e alguém diz: “isso é coisa de menina!”.

A associação do gênero feminino ao que é ruim e fraco pouco a pouco corrói o espírito e destrói a autoestima da mulher, que vira uma adulta conformada com a violência que sofre

Seria muito simples Kyra se ressentir e deixar a vida no automático, submetida neste ambiente desde a infância. Quando jovem, teve um grau de expressividade através de conquistas esportivas, mas, fora do tatame, não tinha voz. Os laços familiares chegaram até ela com a força de uma arte marcial, mas “embrulhados em um pacote” de machismo e discriminação.

Só que ela decidiu virar o jogo, ou, como se fala dentro do jiu-jitsu, “raspar a guarda”.

Resolveu dar voz à dor de tantas mulheres oprimidas quantas ela pudesse alcançar com seu trabalho, ensinando conceitos de defesa pessoal para aquelas que tendiam a se tornarem presas da vontade de quem se “acha mais”. A capacidade de “equilibrar” uma luta a favor do que é menos favorecido fisicamente está no cerne da arte compilada pelos seus ancestrais, mas tinha sido esquecida pelas gerações que se seguiram. Graças a ela este princípio seria revivido e logo alcançaria idosos e crianças, outros “alvos” comuns.

Seu ensino vai além do tatame; ensina às mulheres reconhecerem estes pequenos abusos no cotidiano e “combatê-los” de forma inteligente e sagaz, assumindo o papel de protagonismo das próprias vidas.

Minha homenagem à sagacidade desta mulher que, tingindo de rosa o quimono, equilibrou o próprio legado, purificando-o de uma sombra de preconceito e patriarcado para entregar algo útil e único para a sua comunidade.

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura, com formação em medicina chinesa, osteopatia e inteligência sistêmica