24 de julho de 2026
OPINIÃO

Amor divino


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Se há algo que me preenche é o conhecer mais a Deus no ouvir, na vivência e em experiências concretas.

Mamis contava que antigamente, em seu tempo de adolescência na rua Rangel Pestana, residia uma mulher em situação de prostituição e seu filho de pai ausente. Os vizinhos para não ficarem mal falados não a cumprimentavam, exceto mamis – comovia-se com seu olhar triste, a solidão, o menino - e mais três pessoas. Mas esses mesmos vizinhos, escandalizados com a presença dela, costumavam observá-la como muita “gente direita” pelas frestas da janela. Diziam que era uma vergonha que morasse em área central.

A moça sentia-se obrigada a andar de cabeça baixa, como se sua presença fosse uma aberração para a sociedade. Seu coração, no entanto, buscava o Céu. Rezava muito. Com 12 anos, o menino furtou um doce no armazém da esquina. A polícia o levou para uma instituição em São Paulo, como crime grave. Recebia visitas maternas, mas retornou apenas aos vinte e um anos e como excelente marceneiro. Eram tantas as encomendas, que precisou contratar ajudantes. Reconstruiu a vida da mãe, que fora abusada pelo padrasto aos 10 anos e empurrada para fora de casa, com a injúria de que seduzira o indivíduo. E permaneceu por muitos anos abusada pelo olhar de vizinhos julgadores hipócritas.

Domingo passado, em sua homilia na Capela São José da Pedra Santa, o Padre Márcio Felipe de Souza Alves, Reitor do Santuário Diocesano Santa Rita de Cássia, a respeito do Evangelho de São Mateus (10, 26-33), comentou que, quando nos escondemos de Deus, quando machucamos o Seu coração, Ele pergunta onde estamos, não com o objetivo de nos julgar e nos punir, mas porque nos ama. Enfatizou o versículo 31: “Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais”. E que Ele volta a nos procurar, quantas vezes forem necessárias, pois o próprio Jesus disse: “Eis que estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos”.

Deus sabia o que passava aquela mulher tão discriminada e seguia ao seu lado. Ele perguntava onde estavam aos envoltos em seus julgamentos, pois quem condena o próximo, mesmo que diga palavras sobre Deus, está distante dEle.

Estou lendo o livro “Ensinamentos Espirituais” de São Doroteu de Gaza, monge e abade cristão, que faleceu em 565. A primeira vez que soube dele foi na Liturgia das Horas. Há duas leituras dele na nona semana do Tempo Comum. O inesquecível Dom Joaquim Justino Carreira sempre comentava sobre esses dois textos comigo, que convidam a nos acusar. Em “Ensinamentos Espirituais”, sobre não julgar o próximo, ele escreve que não há nada pior do que julgar. Se aceitamos a mais leve suspeita contra o próximo, o espírito começa a esquecer seus próprios pecados e se ocupar do outro. E que nada irrita mais a Deus, nada despoja mais o homem e o leva ao abandono como o falar mal do próximo, o julgamento e o desprezo. 
Diz São Doroteu: “Se amamos a Deus, quanto mais nos aproximamos de Deus pela caridade, tanto mais estaremos unidos ao próximo na caridade, e quanto mais estivermos unidos ao próximo, tanto mais estaremos unidos a Deus”.

Como nos convidou o Padre Márcio Felipe ao final da homilia: “O Senhor permanece conosco, o Senhor está em nossa vida. Declaremo-nos a favor de Deus” e isso passa pela caridade.

Maria Cristina Castilho de Andrade  é professora e cronista