A participação das mulheres nas disputas eleitorais tem crescido nos últimos anos, mas a presença feminina entre os eleitos ainda permanece abaixo da observada entre os homens. Em meio a esse cenário, pré-candidatas da Região Metropolitana de Jundiaí começam a se movimentar para as eleições de 2026 com o objetivo de ampliar a representação feminina da região.
Nas eleições estaduais e federais de 2022 em São Paulo, as mulheres representaram 32,8% das candidaturas registradas. Ao todo, foram 1.198 candidatas entre os 3.655 concorrentes. Entre os eleitos, porém, a participação feminina foi menor. Dos 167 candidatos que conquistaram mandato, apenas 41 eram mulheres, o equivalente a 24,5% do total. Os homens ocuparam 126 vagas, correspondendo a 75,5% dos eleitos.
Em Jundiaí, o cenário também evidencia a baixa representação feminina nos cargos legislativos. Nas eleições municipais de 2024, apenas três mulheres foram eleitas para a Câmara Municipal entre os 19 vereadores que compõem a atual legislatura. O número representa 15,8% das cadeiras do Legislativo, enquanto os homens ocupam 84,2% das vagas.
O cenário local acompanha uma tendência observada em âmbito nacional. Levantamento do Portal da Classe Política, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), aponta que o número de mulheres candidatas à Câmara dos Deputados saltou de 358 em 1998 para 3.668 em 2022, crescimento de 925%. No mesmo período, o número de deputadas federais eleitas passou de 29 para 90, aumento de 210%. Apesar do avanço, as mulheres conquistaram 17,5% das cadeiras da Câmara dos Deputados nas eleições de 2022.
Na Região Metropolitana de Jundiaí, entre os nomes já colocados para a disputa de 2026 estão Ellen Martinelli (União Brasil) e Rosaura Almeida (PT), que pretendem disputar uma vaga na Câmara dos Deputados, além de Renata Sene (Republicanos), de Francisco Morato, que tem o nome cotado para a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).
A pré-candidata Ellen Martinelli afirma que sua decisão de disputar uma vaga federal é motivada pelo compromisso com a população e pela ausência de representantes da Região Metropolitana de Jundiaí nas esferas estadual e federal nos últimos 12 anos. Segundo ela, suas principais bandeiras são segurança pública, a regionalização da saúde, a mobilidade e a inclusão social. Ellen avalia que a falta de planejamento integrado compromete áreas estratégicas, como a saúde e o transporte coletivo, e defende a construção de um novo hospital regional.
Sobre a participação feminina na política, destaca que as mulheres ainda enfrentam preconceito, intimidação e ataques nas redes sociais. “O preconceito e a intimidação no meio político são reais e pesados. Pelo simples fato de ser mulher, você vira alvo. Já tive que ouvir nos bastidores perguntas como: ‘Mas Ellen, o que você vai fazer com os seus filhos se for para Brasília?’ — um questionamento que nenhum homem público ouve. É um julgamento disfarçado, que se soma aos ataques e às fake news na internet que tentam nos diminuir o tempo todo. Para ampliar a representatividade, precisamos superar e ter a coragem de enfrentar aqueles que se consideram "donos das cadeiras" antes mesmo da eleição. A cadeira não tem dono, ela pertence ao povo. Estou pronta para aguentar o tranco e abrir caminho para as próximas mulheres e abrir espaço para novas lideranças femininas”, afirma.
Renata Sene é formada em Serviço Social, possui MBA em Gestão e Administração Pública, pós-graduações em Administração e Planejamento de Projetos Sociais e em Psicopedagogia, além de mestrado em Desenvolvimento Regional.
Sua entrada na política eleitoral ocorreu em 2016, quando foi eleita prefeita de Francisco Morato pelo então PRB, atual Republicanos.Em 2020, foi reeleita com 86,9% dos votos, uma das maiores votações proporcionais do estado de São Paulo naquele ano. Em fevereiro de 2025, assumiu a presidência da Fundação Republicana Brasileira e hoje é candidata a deputada estadual.
“É essencial que mulheres estejam à frente da política. Porque é no nosso colo que tudo começa. Estar à frente é garantir que as questões que afetam só as mulheres sejam lembradas e defendidas. Conhecemos na prática o que aflige as mulheres: saúde, educação, cuidado. E hoje essas pautas ainda têm muitas ausências nas agendas do século 21. É tempo de estarmos à frente, decidindo e transformando. As mulheres já estão sensibilizadas e entendem a importância da representatividade. Não é mais nos aproximarmos por sororidade e sim por ‘dororidade’ pois quando entendemos a dor, lutamos com a empatia necessária para provocar a mudança”, afirma Renata.
Segundo a pré-candidata do (PT), Rosaura Almeida afirma que decidiu disputar uma vaga na Câmara dos Deputados por acreditar que Jundiaí e a região possuem força eleitoral suficiente para eleger representantes com atuação direta no território. Professora de formação e com trajetória na rede pública de ensino, ela aponta a educação como a principal bandeira de mandato, defendendo a valorização dos profissionais da área, a ampliação da inclusão escolar e o fortalecimento das políticas voltadas à infância e adolescência.
Para o cientista social André Ramos, o aumento da participação feminina na política depende de mudanças que vão além da legislação eleitoral. Segundo ele, o fato de Jundiaí contar atualmente com três mulheres na Câmara Municipal já representa um avanço em relação ao histórico da cidade.
Ramos afirma que medidas como campanhas de conscientização, fortalecimento da autonomia das mulheres e mecanismos de incentivo à participação feminina nos partidos seguem necessárias para ampliar essa presença nos espaços de poder e reduzir a desigualdade de representação
O especialista avalia, porém, que a política brasileira ainda carrega uma estrutura historicamente masculina, o que dificulta o acesso das mulheres aos cargos eletivos. "É preciso uma mudança cultural. A política sempre foi um ambiente muito masculino e isso ainda se reflete na forma como a sociedade enxerga a participação das mulheres", afirma.
Segundo o especialista, também é necessário combater a ideia de que a política é um espaço predominantemente masculino. "Essa percepção faz parte de uma lógica que ainda está presente na cultura brasileira. Quanto mais mulheres ocuparem esses espaços, maior tende a ser o incentivo para que outras também participem", completa.