22 de julho de 2026
OPINIÃO

Noronha por uma ótica diferente: a nado!


| Tempo de leitura: 3 min

Fernando de Noronha é um daqueles lugares que nos lembram o quanto a natureza pode ser grandiosa. Patrimônio Natural Mundial, o arquipélago abriga um dos ecossistemas marinhos mais preservados do planeta. Foi nesse cenário privilegiado que vivi uma das experiências mais marcantes da minha vida.

No último domingo, participei de uma travessia em águas abertas pelo chamado Mar de Dentro, a face mais protegida da ilha principal. O percurso teve início na Ilha da Rata e seguiu até a Ponta da Sapata, 12 quilômetros de natação no paraíso.

Éramos aproximadamente 50 nadadores, cada um carregando suas próprias histórias, expectativas e desafios. Mas acredito que todos compartilhávamos o mesmo desejo: viver algo inesquecível.

Ao contrário da piscina, onde tudo é previsível e controlado, o mar exige presença, respeito e adaptação. Não há raias, bordas ou referências além da encosta. Há correntezas, vento, ondulações e uma imensidão azul que nos convida a confiar.

Nadar no mar não é sobre velocidade. É sobre eficiência. A água não recompensa a força bruta. Recompensa técnica, economia de energia, boa navegação e uma respiração tranquila. A física não negocia com o ego.

Logo no início, encontrei uma triatleta de João Pessoa. Sem combinar nada, seguimos juntas praticamente toda a travessia. Ajustamos a navegação, observamos a vida marinha e conferimos se estava tudo bem uma com a outra. Em determinado momento tentei mostrar um tubarão que passava abaixo de nós. Sem medo, apenas com respeito por aquele ambiente tão rico e preservado.

Mais tarde, fizemos uma parada obrigatória no Morro Dois Irmãos. Alguns atletas encerraram a prova naquele ponto. Nós seguimos. Pouco depois, encontramos João Paulo, filho da lendária nadadora Elza Marina Mazzei, e completamos o restante do percurso juntos. Foi um momento muito especial.

Nadei rezando, cantando e reverenciando pessoas importantes na minha vida na água: Ernesto Staeheli, Antonio Cortina, o Tunico, e Elza Marina. Amigos que deixaram um legado enorme para a natação e que estiveram presentes em meus pensamentos durante todo o percurso.

Por diversas vezes, entrei em estado de flow, uma condição em que o cérebro se conecta completamente ao momento presente. Não havia preocupação com o relógio ou com a distância restante. Existiam apenas o movimento, a respiração e a água. Foi uma verdadeira meditação em movimento.

Concluímos os 12 quilômetros em 3 horas e 46 minutos de nado efetivo, mas permanecemos cerca de sete horas na água, devido às paradas e ao suporte aos demais participantes.

E a natureza ainda reservava um presente final. Ao nos aproximarmos da Ponta da Sapata, fomos recebidos por um verdadeiro aquário natural, com peixes coloridos brilhando sob um azul intenso e cristalino.

Ao sair da água, percebi que havia conquistado muito mais do que uma travessia. Conquistei uma lembrança para toda a vida.

Os grandes desafios não nos transformam apenas pela distância percorrida, mas pelas experiências vividas ao longo do caminho. Voltei para casa realizada, grata e com a certeza de que alguns sonhos valem cada treino, cada dúvida e cada esforço.

Entre a Ilha da Rata e a Ponta da Sapata, encontrei muito mais do que uma chegada. Encontrei uma versão de mim mesma que jamais esquecerei. Muita saúde a todos.

Liciana Rossi é especialista em coluna e treinamento corretivo. Pioneira do método ELDOA no Brasil