Uma das lições mais impactantes sobre traumas psicológicos ocorreu para mim de maneira inesperada, durante uma aula prática no quinto ano da minha formação em osteopatia. Como outras abordagens alternativas, a osteopatia tem recursos para investigação e tratamento de sequelas emocionais que se manifestam fisicamente no corpo.
Como se tratava de uma classe de alunos em treinamento, fazíamos os procedimentos uns nos outros e, naquele momento, éramos um grupo de três: um aluno no papel de paciente, outro conduzindo o procedimento e eu, como auxiliar, monitorando os sinais vitais do “paciente”, para garantir a segurança e eficácia do processo todo. Estávamos conduzindo o colega-paciente em uma visualização guiada à um “local” que lhe transmitisse a sensação de calma, passividade e segurança. Este seria o “ponto de partida” para outras técnicas que investigariam as dores propriamente ditas.
O condutor falava com o “paciente” pedindo-o para detalhar como era o lugar que imaginava, potencializando o pensamento e seus efeitos no corpo. Lembro-me do colega descrever um lago cristalino sob um céu azul de um dia ensolarado e quente no campo. Dizia-se flutuando próximo ao fluxo de uma cachoeira em uma das extremidades.
A cena me parecia bem aprazível, mas a minha monitoria me mostrava justo o contrário: a frequência cardíaca, que eu tomava pelo pulso, era acelerada demais para o contexto, com quase 100 batimentos por minuto. As mãos dele estavam frias e pálidas, com um suor fino que não apresentavam no início da indução. Calculei a frequência cardíaca novamente, fazendo as contas “de cabeça” e o resultado era o mesmo. Olhei para a barriga dele e sua respiração era rápida e curta, com uma ligeira pausa entres cada tomada de ar. Uma rápida inspeção dos pés estirados na maca comprovou o quadro que já vira nas mãos: estavam frios e suados.
- “Professor!...” – Falei levantando o braço. Ele já se apercebeu do ocorrido e assumindo o posto de tratamento, retirou o colega da indução “trazendo-o” para a sala e normalizando os sinais vitais.
- “Não entendo!” – disse o colega-paciente quando o professor comentou que a cena que ele havia escolhido não lhe trazia paz... muito ao contrário – “eu adoro água e cachoeira, vou até elas sempre que posso!”.
Na verdade, mais que isso. Ele praticava rapel dentro do fluxo da cachoeira, gostava desta parte mais radical da proximidade da natureza. Pouca conversa depois, o experiente professor extraiu o que o aluno tinha “esquecido” de contar: quando criança, ele tinha “quase” se afogado e a única coisa de que se lembra era do puxão do braço de sua mãe tirando-o da água.
Ele não relacionava os fatos até então, mas a sensação de tração feita por uma corda frente a um turbilhão d’água de uma cachoeira se assemelhava muito ao braço salvador que tivera na infância. Parece que ele inconscientemente repetia o ato, para fazer o corpo entender algo oculto dentro do que parecia ter sido um pouco mais que um “quase afogamento”.
Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura, com formação em medicina chinesa, osteopatia e inteligência sistêmica