10 de julho de 2026
OPINIÃO

Quando o preconceito decide onde o idoso pode viver


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O Brasil envelhece em ritmo acelerado, mas parte da sociedade ainda não aprendeu a conviver com a velhice. O preconceito contra a idade, conhecido como idadismo, continua presente em pequenas e grandes atitudes, influenciando decisões, comportamentos e até políticas que afetam diretamente a vida das pessoas idosas.

Recentemente, discussões envolvendo Instituições de Longa Permanência para Idosos em bairros da capital paulista reacenderam um debate importante: por que ainda existe tanta resistência à presença de idosos em determinados espaços? Em muitos casos, a instalação ou funcionamento dessas instituições encontra oposição baseada em argumentos que escondem um desconforto maior: a dificuldade de aceitar o envelhecimento como parte natural da vida.

O idadismo não acontece apenas quando alguém faz uma piada sobre a idade de outra pessoa. Ele também aparece quando se acredita que o idoso não pode mais decidir por si mesmo, trabalhar, aprender, amar, participar da vida comunitária ou escolher onde deseja morar. É um preconceito silencioso, muitas vezes naturalizado, que limita oportunidades e reduz a autonomia de milhões de brasileiros.

Existe uma ideia equivocada de que todos os idosos desejam ou conseguem viver da mesma forma. A realidade é muito diferente. Algumas pessoas envelhecem cercadas pela família, outras moram sozinhas com independência. Há quem precise de apoio parcial e quem necessite de cuidados permanentes devido a doenças, limitações físicas ou comprometimentos cognitivos. Nenhuma dessas condições torna alguém menos cidadão.

As Instituições de Longa Permanência para Idosos cumprem um papel fundamental na rede de cuidados. Elas não devem ser vistas como locais de exclusão, mas como espaços de proteção, acolhimento, convivência e assistência para aqueles que necessitam desse suporte. Da mesma forma que existem escolas, creches, hospitais e centros de reabilitação, também existe a necessidade de ambientes preparados para atender pessoas idosas com diferentes níveis de dependência.

Defender que idosos possam viver apenas em determinados lugares significa ignorar a diversidade do envelhecimento humano. O verdadeiro desafio não é afastar a velhice dos bairros, mas construir comunidades capazes de acolher todas as fases da vida. Uma cidade inclusiva é aquela que aceita crianças, jovens, adultos e idosos compartilhando os mesmos espaços, respeitando as necessidades de cada grupo.

Precisamos abandonar a visão de que a velhice é um problema a ser escondido. O envelhecimento é uma conquista social e individual. Quanto mais a medicina avança e mais a expectativa de vida aumenta, maior será a necessidade de criarmos ambientes preparados para receber pessoas idosas com dignidade.

O local onde um idoso vive deve ser definido por suas necessidades, sua segurança, sua autonomia e sua vontade, e não pelo preconceito de terceiros. Seja em sua própria casa, com familiares, em moradias assistidas ou em instituições especializadas, toda pessoa tem o direito de envelhecer onde encontrar cuidado, respeito e qualidade de vida.

A forma como tratamos nossos idosos hoje revela a sociedade que desejamos construir para o futuro. Afinal, envelhecer não é um privilégio de poucos. É o destino de todos nós.
  
Edvaldo de Toledo é enfermeiro e especialista em cuidados domiciliares, @edvaldo.toledo