12 de junho de 2026
OPINIÃO

Entre moléculas e leões


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Vamos pensar em um leão? Feche seus olhos um pouco e se retenha na primeira imagem que minha provocação trouxe para a sua mente.

Acredito que a maioria pensou em um animal grande com o corpo musculoso e sólido, coroado por uma juba castanho-enegrecida, ao redor de uma face imponente com uma boca enorme recheada de presas do tamanho de dedos. O conjunto todo estaria calmamente assentado sob o sol da savana africana, tomando posse de um reino que sempre lhe pertenceu.

Agora, vamos fazer um exercício ainda maior de criatividade; imaginemos que o nosso sistema endócrino, o conjunto integrado de glândulas secretoras de hormônios do nosso corpo, fosse algo como ... uma inteligência artificial. Como tal, ele aceitaria comandos para serem executados, produzindo respostas sob a forma de secreções que viajam por via sanguínea pelo corpo todo.

“-Pense em um leão!” – seria o comando que eu colocaria no seu “prompt” e, tenho certeza, ele me daria como resposta uma molécula de testosterona.

Este hormônio, bem famoso hoje em dia, é a própria majestade leonina traduzida em um composto esteroide, produzido principalmente (mas não somente) pelos testículos, e por isso homens possuem níveis tão elevados dele no sangue. Seus efeitos são vários, mas quero focar na sua ação junto ao nosso cérebro e, por consequência, no nosso comportamento.

Existiram muitos estudos bons que associaram altos níveis de testosterona com comportamentos agressivos, como os conduzidos com a população carcerária. Os presidiários mais rebeldes e que carregavam crimes hediondos tinham níveis bem acima da média de seus pares, de forma que talvez o excesso de “suco leonino” fosse um problema para o convívio social e o seu controle uma possível solução.

No entanto, pesquisadores notáveis, entre eles o Dr. Robert M. Sapolsky, em estudos com populações de babuínos (nossos “parentes” evolutivos, cuja sociedade também tem altos níveis de testosterona) provaram a inocência do hormônio no comportamento deletério: a sua ação está mais ligada a tomar atitudes rapidamente sem pensar nas consequências (pode-se chamar de “reatividade”), principalmente quando o assunto é manter a própria posição social perante o grupo.

Caso a sociedade em que o indivíduo está inserido valorize a agressividade e a demonstração de força como formas legítimas de conquistar o seu “lugar ao sol”, a testosterona só o faz usar isso com mais força e menos cuidado com efeitos colaterais.

Faz lógica. Vejam que muito do “poder” da imagem leonina está na capacidade de manter a “pose” de rei de todos os animais. De forma semelhante, a demanda por uma imagem de “líder soberano”, “pai de conduta impecável” ou mesmo “salvador da pátria”, tão valorizada quanto irreal na prática, imersa em um ambiente inundado por testosterona faz qualquer crítica mais incisiva transformar-se em uma ameaça e uma justificativa para o uso de violência – tanto a privada e doméstica como a pública de larga escala.

Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina tradicional chinesa e osteopatia.